quinta-feira, 13 de novembro de 2008

"A liberdade de ver o outro."

Por Albertine

Apresentei outro texto da Piauí no último Clássicos. Se ousou passar na sua cabeça que eu errei ao colocar o pronome feminino na frente do estado nordestino, pare de ler agora, você não é digno deste texto. Bom, voltando ao assunto. O escritor, já defunto, David Foster Wallace, foi paraninfo de uma turma qualquer, de uma universidade qualquer, de uns estados unidos qualquer. Mas não foi um discurso qualquer que David fez durante a formatura. Tanto não foi que “A” Piauí resolveu estampá-lo em suas páginas.

Eu nunca tinha ouvido falar de David. Nunca tinha lido uma única linha sua. E olha que, segundo a revista, ele é “um dos escritores (americanos) mais admirados da sua geração”. Ok, não sou mesmo especialista em assuntos americanos. Na verdade, sou especialista em falar mal deles. Mas tenho que confessar. Ultimamente, tenho sido apresentada a excepcionais cidadãos daquelas bandas. Não é à toa que mestres como Thoreau, Chomsky e Cannon são vistos como aberrações pela maioria dos seus compatriotas.

Não posso me estender muito. Essa é a primeira regra de um texto feito para a rede selvagem pelo mundo (WWW). Mesmo que você tenha muito a dizer, não diga.


David tinha muito a dizer, pena que se foi, cedo, aos 46 anos. Tinha muito a dizer sobre manter-se consciente do que é real e o que é essencial. Sobre o sistema carcerário do consumo inconsciente e sobre a dificuldade de se manter realmente vivo, muito antes de morrer.

Ainda bem que a Piauí adora quebrar as regras. Deixou que David falasse por três longas páginas da web. Depois de lê-las, você fica com a impressão de que acabou de passar os olhos por um grande e pesado livro e, ao mesmo tempo, sente que faltou espaço para todas as discussões por ele levantadas.

Vou deixar que David fale por si só.

“Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.”

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_25/artigo_766/A_liberdade_de_ver_os_outros.aspx

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O jogo do anjo - Carlos Ruiz Zafon

Aos 28 anos, desiludido no amor e na vida profissional e gravemente doente, o escritor David vive sozinho num casarão em ruínas. É quando surge em sua vida Andreas Corelli, um estrangeiro que se diz editor de livros. Sua origem exata é um mistério, mas sua fala é suave e sedutora. Ele promete a David muito dinheiro e sua simples aparição parece devolver a saúde ao escritor. Contudo, o que ele pede em troca não é pouco. E o preço real dessa encomenda é o que David precisará descobrir. Em O Jogo do Anjo, o catalão Carlos Ruiz Zafón explora novamente a Barcelona do início do século XX.

Trecho do livro

PRIMEIRO ATO
A Cidade dos Malditos

Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente o doce veneno da vaidade no sangue e começa a acreditar que, se conseguir disfarçar sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de garantir um teto sobre sua cabeça, um prato quente no final do dia e aquilo que mais deseja: seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente vai viver mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento porque, a partir daí, ele está perdido e sua alma já tem um preço.

Minha primeira vez chegou num dia distante de dezembro de 1917. Tinha na época 17 anos e trabalhava em La Voz de la Industria, um jornal decadente que definhava num edifício cavernoso que, em tempos passados, tinha abrigado uma fábrica de ácido sulfúrico e cujas paredes ainda transpiravam aquele vapor corrosivo que consumia o mobiliário, a roupa, o ânimo e até a sola dos sapatos. A sede do jornal ficava atrás do bosque de anjos e cruzes do cemitério de Pueblo Nuevo e, de longe, a silhueta do edifício se confundia com a dos mausoléus, recortando-se contra um horizonte espetado por centenas de chaminés e fábricas que teciam um crepúsculo vermelho e negro estendido perpetuamente sobre Barcelona.

Na noite que mudaria o rumo de minha vida, o subdiretor do jornal, dom Basilio Moragas, achou por bem convocar-me, um pouco antes do fechamento da edição, ao cubículo escuro e encravado no fundo da redação, que fazia as vezes de escritório e de área para fumantes de charutos havana. Dom Basilio era um homem de aspecto feroz e bigode farto que não estava para brincadeiras e adotava a teoria de que tanto o uso liberal de advérbios quanto o excesso de adjetivos eram coisa de pervertidos e de gente com deficiências vitamínicas. Quando descobria um redator inclinado à prosa mais floreada, tratava de transferi- lo para a redação de obituários por três semanas. Se, depois do castigo, o indivíduo reincidisse, dom Basilio o mandava para a seção de prendas do lar para todo o sempre. Todos tínhamos pavor dele, e ele sabia disso.

- Mandou me chamar, dom Basilio? - arrisquei timidamente.

O subdiretor me olhou de canto de olho. Entrei no escritório, que cheirava a suor e tabaco, nessa ordem. Dom Basilio ignorou minha presença e continuou revisando um dos artigos que estavam na escrivaninha, lápis vermelho em punho. Durante alguns minutos, o subdiretor metralhou o texto, corrigindo, quando não amputando, e resmungando como se eu não estivesse ali. Sem saber o que fazer, vi que havia uma cadeira encostada na parede e fiz menção de sentar.

- Quem disse que podia se sentar? - murmurou dom Basilio, sem levantar os olhos do texto.

Levantei apressadamente e contive a respiração. O subdiretor suspirou, deixou cair o lápis vermelho e reclinou-se em sua poltrona para examinar-me como se eu fosse um traste imprestável.

- Me disseram que você escreve, Martín.

Engoli em seco e quando abri a boca, só o que saiu foi um ridículo fio de voz.

- Bem, um pouco, quer dizer, não sei… ou seja, sim, escrevo…

- Espero que escreva melhor do que fala. Mas escreve o quê, se não for demais perguntar?

- Histórias policiais. Quero dizer…

- Já peguei a idéia.

O olhar com que dom Basílio me brindou é indescritível. Se eu tivesse dito que me dedicava a fazer figurinhas de presépio com esterco fresco teria obtido o triplo de entusiasmo. Suspirou de novo e deu de ombros.

- Vidal diz que o senhor não é de todo mau. Que se destaca do resto. Claro que, com a competência que se vê por essas bandas, também não é preciso ser grande coisa. Mas se Vidal falou.

Pedro Vidal era a estrela literária de La Voz de la Industria. Escrevia uma crônica semanal na editoria de polícia, que constituía a única coisa que merecia ser lida em todo o jornal, e era autor de uma dezena de livros de suspense sobre gângsteres do bairro do Raval vivendo em promiscuidade com damas da alta sociedade, os quais lhe garantiram uma modesta notoriedade. Metido invariavelmente em impecáveis ternos de seda e reluzentes mocassins italianos, Vidal tinha os traços e os gestos de um galã de sessão da tarde: cabelo louro sempre bem penteado, bigode espetado e o sorriso fácil e generoso de quem se sente bem na própria pele e no mundo. Provinha de uma dinastia de imigrantes que tinha feito fortuna nas Américas com negócios de açúcar e que, na volta à Espanha, tinha cravado os dentes numa suculenta fatia do plano de eletrificação da cidade. Seu pai, o patriarca do clã, era um dos acionistas majoritários do jornal, e dom Pedro usava a redação como pátio de recreio para matar o tédio de nunca, nem um único dia de sua vida, ter trabalhado por necessidade. Pouco importava que o diário perdesse tanto dinheiro quanto os automóveis que começavam a circular pelas ruas de Barcelona perdiam óleo: com abundância de títulos de nobreza, a dinastia dos Vidal dedicava-se agora a colecionar bancos e mansões do tamanho de pequenos principados no Ensanche.

Pedro Vidal foi a primeira pessoa a quem mostrei os esboços que escrevia quando era apenas um menino e trabalhava entregando café e cigarros na redação. Sempre teve tempo para mim, para ler meus escritos e dar bons conselhos. Com o tempo, chamou-me para ser seu assistente e permitia que datilografasse seus textos. Certo dia anunciou que, se queria mesmo apostar meu destino na roleta-russa da literatura, estava disposto a me ajudar e a guiar meus primeiros passos. Fiel à palavra dada, tinha me jogado nas garras de dom Basilio, o cão de guarda do jornal.

- Vidal é um sentimental que ainda acredita em lendas profundamente antiespanholas, como a meritocracia, e em dar oportunidade a quem merece e não ao apadrinhado da vez. Rico como é, pode dar uma de lírico pelo mundo afora. Se tivesse um centésimo da grana que sobra para ele, teria me dedicado a escrever sonetos, e os passarinhos viriam comer na minha mão, fascinados por minha bondade e meu encanto.

- O sr. Vidal é um grande homem - protestei eu.

- É mais do que isso. É um santo porque, apesar dessa sua pinta de morto de fome, há semanas que ele me aporrinha com exemplos de como é talentoso e trabalhador o caçula da redação. Ele sabe que, no fundo, sou um sentimental e, além do mais, garantiu que, se eu lhe der uma oportunidade, ele me dará uma caixa de havanas. E se Vidal pede, para mim é como se Moisés descesse do monte Sinai com os Dez Mandamentos numa mão e a verdade revelada na outra. De modo que, concluindo, como é Natal e para que seu amigo feche a porra da matraca de uma vez por todas, vou convidá-lo para estrear como os heróis: contra a corrente dos ventos e das marés.

- Muitíssimo obrigado, dom Basilio. Garanto que não vai se arrepender de…

- Menos, meu caro. Vejamos o que pensa do uso generoso e indiscriminado de advérbios e adjetivos…

- Que é uma vergonha e deveria ser crime previsto no código penal - respondi com a convicção de um crente militante.

Dom Basilio concordou com entusiasmo.

- Muito bem, Martín. Tem prioridades claras. Os que sobrevivem nessa profissão são os que têm prioridades e não os que têm princípios. Eis o plano. Pode sentar e trate de entender, pois não vou repetir duas vezes.

O plano era o seguinte. Por motivos que dom Basilio não considerou oportuno esclarecer, a última página da edição dominical, tradicionalmente reservada para um relato literário ou de viagem, tinha caído na última hora

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Metrô: ícone do sepultamento da humanidade.

xxxxxxxxxxxx


Por Albertine

Carreguei para o Clássicos impressões, nada imparciais, de um cubano sobre Nova York e São Paulo. Adivinhem para que lado ele puxou a sardinha? (quem construiu essa expressão deve mesmo achar sardinha um desbunde gastronômico).

O compatriota de Fidel começa comparando o metrô das duas capitais. Nada melhor do que inaugurar a analogia com o ícone do sepultamento da humanidade. Interessante é perceber como os contrastes do Brasil estão refletidos, até mesmo, no sub de Sampa. Obras de arte e banheiros caminham lado a lado. Já em New York, não tão nova assim, o metrô é a representação do corroído “american way of life”. Paredes cheias de mofo e nada de banheiros. Vai dizer que isso não é a cara dos americanos. Mas incompreensível do que essa pura falta de civilidade, só mesmo o sistema eleitoral dos EUA.

Vou deixar o resto para vocês desenterrarem. Mas o texto vale mesmo pela sensibilidade do autor, um olhar bem particular de um homem experiente que tem a capacidade de parir esse filho de frase: Aos 77 anos de idade, a primeira impressão é a última.


http://www.revistapiaui.com.br/edicao_25/artigo_774/NY_e_SP.aspx

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Literatura mineira-brasiliense

Por Érica Abe

Para o Clássicos da semana retrasada (sim, esse post é bem atrasadinho), decidi levar um escritor - que também é jornalista - daqui de Brasília mesmo. Apesar de ter nascido em MG, José Rezende Jr. lançou seu primeiro livro, A mulher gorila e outros demônios, na capital federal. E é onde também está escrevendo também sua segunda aventura pelo mundo ficcional.


Para o nosso encontro, optei por levar o primeiro conto da Mulher Gorila. Chama-se Pleibéqui. É denso, curto, conciso, inesperado, surpreendente....enfim....bom pra caramba. Como o Rezende optou por colocar Mulher Gorila na net, me senti ainda mais à vontade para colocar o ínício do conto aqui. O restante, vocês conferem no site dele.

"Só fui reparar que era a Creuza quando ela já tava lá, no meio do palco, as luzes todas em cima, tinha até começado a cantar. Como eu ia adivinhar, se o locutor anunciou um nome que não era Creuza? Burro, na hora nem me passou pela cabeça, todo artista muda de nome pra ficar mais chique, se bem que, segundo a revista, já tem mãe batizando filho com nome artístico pra não precisar trocar depois de grande. E só quando a Creuza já tava lá no meio do palco e do refrão da música foi que me lembrei da promessa que ela fez uns anos atrás, nem era promessa, era mais um sonho, “eu vou ser cantora”, e eu ri, e não podia ter rido, ela me disse depois, quando eu telefonei pro salão de beleza pela décima vez e ela, cansada de mandar a Dirce dizer que tinha morrido e que queria que eu morresse também, pegou o telefone e gritou “você não podia ter rido de mim, podia ter falado du-vi-deo-dó ou sei lá acho que vai ser difícil porque o que mais tem neste país de merda é cantora de merda, podia falar qualquer coisa, menos rir na minha cara.” Eu não devia mesmo ter rido, porque ela não riu naquele dia quando a gente namorava e eu disse que ia ser jogador de futebol, ela ficou séria, “se é o que você quer, dou a maior força”, mas eu não fui jogador de futebol, não fui porra nenhuma, e ela agora era cantora, tinha palco, luz azul e tudo."

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Home sweet home

Por Érica Abe

Voltar a escrever no blog do Clássicos (e também no meu) traz uma sensação de que a vida voltou ao normal. Em parte, sim.

Suspendemos nossos encontros literários por umas muitas semanas, primeiro em função das férias de inverno do Fe e depois das minhas viagens laborísticas.  Há 15 dias, voltamos à rotina, deliciosa por sinal!

Dae então o sentido deste post. A minha contribuição da quinzena passada foi esse vídeo aqui, que muita gente até já viu, mas que tem um dos melhores diálogos de curta que eu já vi.


Enjoy it!


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sobre Marrakech

ou da super reproduçao das laranjas...
02/06/08 ou 2008 a.c.

Por Érica Moreti by milanesa

Imaginem uma praça onde existam dezenas de barraquinhas de teto branco e esfumaçantes,
trânsito sem direçao definida misturando bicicletas, mobiletes, ônibus, charretes e pessoas, encantadores de cobras, figuras com roupas semelhantes às de Maracatu vendendo água armazenadas em sacos de pele de camelo e laranjas: Praça Djama el Fna.

São 13:30, sexta feira, Marrakech, Marrocos. Dia sagrado muçulmano. Uma torre de mesquita - à sua direita - canta. Mesquita de Kotoubia.

Aos poucos se começa a ouvir outros cantos vindos de direções diferentes. Existem 3 grandes mequistas e 5 são os horários de oração. As torres se comunicam entre si para lembrar (ou nao deixar esquecer) os fiéis das rezas diárias - tudo muito sutil, ahn? -Nesse momento as praças e ruas perdem seu movimento habitual.

Os fiéis vão às Medinas orar. E os judeus têm um pouco mais de paz nessa hora. Mas ainda se pode tomar um suco de laranja... Das dezenas de barracas, metade é de suco de laranja. Os melhores de minha vida. E são infinitos. Inshala.
Os carrinhos com a foto do rei estão por toda a parte (informaçao útli numero 1: as laranjas são originárias daquela região).

- comentario pessoal: Provavelmente os grãos de areia do deserto são sementes de laranja. Ou elas se reproduzem como coelhos - Arturo Baldini, nosso protagonista de Pergunte ao pó, comeria laranjas em Marrakech? - Cruzando as barracas se chega a ruas estreitas do mercado: os souks, mercados de venda de tudo o que se pode imaginar. (Feira do Guará no chinelo.. Dizem que existe uma semlhança incrível com o mercado de Guajaca no México). O mais interessante são as barracas de especiarias e as herboristerias. Ambas exalam o cheiro da cidade, da comida e de seus habitantes; tudo cheira a uma mistura de 35 especiarias.

- desde então sinto um marroquino a quilômetros de distância. E lavei muito bem minhas roupas
-as herboristerias são regidas pelo famoso pensamento mágico que nos faz sempre querer acreditar em milagres.
- o mesmo vale para a comida nas culturas em geral, discurso à parte - herança deles e suas mil e uma noites. O que não faz da imagética menos bela. São cores e detalhes maravilhosos de especiarias e tinturarias de tecidos a céu aberto. A principal caracteristica dos marroquinos - assim como de todos os islâmicos da época da primeria globalização - as navegaçoes -, é a de serem grandes negociantes. Grandes, não bons. Depois que se entende o sistema vc descobre que são negociantes ingênuos. Isso explica muita coisa sobre sua história. Me refiro aos muçulmanos em geral. Os turcos perderam a Grécia, os muçulmanos perderam a terra em Israel e assim por diante. Tentam te enganar, mas são ingênuos, esqueceram de proteger o método. Negociam pelo prazer da dialética e fim. Cada objeto custa 1/4 do seu preço, e todo mundo sabe. Ganham apenas pela desistência de seus oponentes, que cansam da dialética e continuam fingindo negociação - assim os deixamos felizes.

Marraquech fala todas as línguas possíveis. Além do Beriberi (lingus beduína que originou o árabe marroquino, o francês (ok, esse é conhecido...), espanhol (ensinado no ensino básico e provindo da ocupação moura principalmente na Andaluzia), inglês (porque todo mundo fala), Italiano (porque eles estão em todas as partes) e arriscam o português (o futebol faz maravilhas). Isso os possibilita de pedir dinheiro em qualquer língua. E non-stop. Marroquinos são pedintes em potencial. (frase obrigatória: la shukram - não, obrigado.)
- no Brasil nivelariam a população. De tanto que vc daria, teria que começar a pedir também. Qualquer pessoa na rua pede dinheiro: "Messiê, messiê, dirham (a moeda marroquina)".
Repita o refrão 150 vezes e multiplique pelos 1 036 500 habitantes. Isso dá a idéia da agradabilidade da aproximação.

Se tirar foto, pedem. Se olhar, pedem. Se ficar parado sem se mover, tampando os olhos, pedem.
O centro da cidade é murado, separado pelos muros da Medina. Ali dentro tudo acontece.
O fato curioso é que ali o tempo pára. Se alguém se lembra de qualquer história bíblica, pode vê-la ali em technicolor. Provavelmente as pessoas sejam as mesmas do tempo de antes de Cristo.

Só existem mercados de rua onde vc pode encontrar pães à venda empilhados no chão, pode escolher a galinha de sua preferência (que será acolhida por Alá diante de seus olhos), seus objetos feitos à mão (ou com o pé - um senhor entalhava a madeira com o pé) ou comer uma saborosa linguiça de pâncreas em um lugar onde a tampa do lixo é uma tampa de toilette ou comprar seu cobertor de pele de camelo. Carpinteiros, mercados da Medina (a serem ainda destruídos por Jesus para mostrar sua fé), túnicas e burcas, casas e estruturas feitas em areia e palha, cosméticos em seu estado puro (batom em Beriberi: pigmento marrom espalhado sobre uma superfície de cerâmica acionada pelo poder do cuspe. Passar na boca com o dedo.) Incrível. museu a céu aberto.
- Aconselho a Bíblia como guia de viagens -
A paisagem rumo ao deserto muda.
Muita terra árida com rios de árvores (definiçao de meu flatmate, Gui).
Paisagens verdes localizadas em contraste com as casas camufladas. Todas as construções no Marrocos são rosadas cor-de-terra. Tudo é rosa - a semente histórica da Barbie. À primeira vista não se vêem, à segunda estão ali. As cidades maiores são a modo tradicional: prédios, lojas, etc..
Destaque para os Kasbahs, contruções gigantescas, tipo fortalezas que protegem a cidade, que foram location de clássicos como Ben Hur, Babel, A Múmia - sim, a múmia é um classico - e outros.. Lindos! Mas impedidos de visitação pela concentração de pessoas que pedem dinheiro.
(depois eu entro neles vendo "A Múmia").

O deserto é algo de sensacional. E andar de camelo dói. 5 minutos são suficientes para um treinamento de abertura completa. Certamente os humanos de sexo masculino têm mais dificuldades. A experiência de comer com os beduínos, dormir olhando as estrelas cadentes e entrar na tenda correndo por causa da tempestade de areia é indescritível. Alá salve as tempestades de areia. De repente a noite fica branca e se sente o vento mais sólido.
- visão, roupas e higiene pessoal obviamente prejudicadas - E se acorda embaixo de uma duna, mesmo dentro da tenda.

Pôr do sol laranja e azul, figuras com turbantes coloridos, meia lua arábica, gosto e cheiro de chá de menta, tenda de tapetes, areia quentinha, barulho de ventania, milhões de grãos voadores e pêlo de camelo.

Sensações do deserto de Zahora.
De volta à nossa Marraquexe, mais cuscuz e Tajine (carne assada em potes de ceramica de forma particular, sempre à 35 especiarias), chá de menta e batuques de tambor misturado com flautas dos encantadores.

O trânsito segue muito livre - o direito de ir e vir - com personalização de direções, mesmo que isso inclua você no caminho.
E muitas luz das barraquinhas e lâmpadas maravilhosas no tempo de 2008 a.c.
Tudo com muita cor e especiarias. Desistam do Texas, o Marrocos sim é que uma terra sem lei.
Vos espero em Casablanca para um café no Rik's.
beijos,
- correspondente internacional -

terça-feira, 17 de junho de 2008

"Maioria de um só"

Semana3

Por Albertine

Depois que vi o filme “Na natureza selvagem”, fiquei catatônica por uns quatro dias. Eu não habitava mais o meu corpo. Só era capaz de executar as funções mais vitais. Estava parecendo com Darrell Standing quando submetido à camisa de força em o “Andarilho das estrelas”, livro de Jack London.

Sim, eu sou uma pessoa impressionável, a minha relação com o mundo, em um primeiro contato, ocorre com base no “ou eu amo, ou eu odeio.” Sinto, depois penso a respeito. E o meu encontro com a história de Christopher McCandless, principal personagem de “Into the Wild”, título original, não poderia ter sido diferente.

Não vou contar o filme aqui, mas o recomendo a todos aqueles que se sentem desajustados neste planeta, que acreditam que está tudo fora de ordem, que não entendem como as coisas (“things, things, things”) podem ser mais importantes do que as pessoas. Quem sabe, vocês não se sintam menos solitários ao assistir a história de alguém que abriu mão do “american way of life” e botou o pé na estrada para descobrir o seu jeito de fazer a vida.

Além de Chris, você poderá descobrir Thoreau e rever velhos conhecidos como Tolstoi e Jack London. Reunidos em uma espantosa sincronicidade, mesmo vivendo em épocas distintas, alertando para assuntos tão atuais, como a necessidade urgente do homem se reintegrar à natureza. Todos acompanhados pela trilha sonora de Eddie Wedder. O roteiro partiu de um livro de Jon Krakauer, jornalista americano que se sentiu impelido a desmistificar a idéia de que o jovem, que dá vida ao longa, era apenas mais um descompromissado aventureiro.

E foi exatamente este livro que eu levei para o Clássicos. Na verdade, é o quarto encontro consecutivo para o qual trago algo relacionado ao filme. Um pouco de compulsão da minha parte? Talvez. Acho que tenho uma intensa necessidade em compartilhar. Deve ser a mesma motivação que leva um crente a ficar pregando na parada de ônibus ou no meio do carnaval de rua.

Já ouvi opiniões muito divergentes sobre a trajetória de Christopher McCandless. Alguns o acham ingênuo e passional, fazendo quorum à crítica de O Globo. Mas o que se esperar de um veículo cartesiano e neoliberal que adora estampar a última tecnologia em cirurgia plástica para acabar com as rugas que você levou anos para conquistar? ... Outros, como eu, se surpreenderam com a coragem e se identificaram com o seu despreendimento.

Maldito do imbecil que disse que a democracia é a forma mais justa de governo. Qualquer homem mais correto que seus vizinhos já constituiu a maioria de um só, já dizia Thoreau.


Em nome da democracia, deixo-os com um trecho do livro que deu origem ao “Na natureza selvagem”. Dêem vocês o veredicto.

Bom Apetit!

“Em relação a quando visitarei a civilização, não será breve, acho. Não me cansei da natureza; ao contrário, deleito-me cada vez mais com sua beleza e com a vida errante que levo. Prefiro a sela ao bonde, e o céu salpicado de estrelas a um teto, a trilha obscura e difícil, levando ao desconhecido, a qualquer estrada pavimentada, e a paz profunda do campo ao descontentamento gerado pelas cidades. Você me censura por ficar aqui, onde sinto que é o meu lugar e que sou uno com o mundo a minha volta?
É verdade que sinto falta de companhia inteligente, mas há tão poucos com quem compartilhar as coisas que significam tanto para mim que aprendi a me conter. É suficiente que eu esteja cercado de beleza...
Mesmo com base em sua descrição insuficiente, sei que não conseguiria suportar a rotina e o tédio da vida que você é forçado a levar. Não acho que poderei algum dia fixar residência. Já conheci demais as profundezas da vida e preferiria qualquer coisa a um anticlímax.”

*Serviço
KRAKAUER, Jon. Na natureza selvagem; tradução Pedro Maia Soares. – São Paulo: Companhia das Letras, 1998.