
Bastidores I
- O Dani veio só pra aparecer no blog! - acusa um.
(...)
- Ele só quer divulgar o livro dele – emenda outro.
(...)
Brincadeiras à parte, além de Thoreau, Somerset, Neruda e Paul Klee, o Clássicos do Abajour desta semana contou com a presença ilustre de um de seus membros mais antigos, Daniel Couri. E para nos matar de inveja, acaba de lançar seu primeiro livro, “Made in Suécia: o paraíso pop do ABBA”. Um chiqueté. Ele dispara na corrida da trilogia "Plante uma árvore, faça um filho e escreva um livro antes de morrer." A nossa vantagem está no fato de ser tecnicamente inviável ele fabricar um filhote. (piada infame)
“A insustentável leveza do ser”
Por Daniel Couri
No último livro que li, O Fio da Navalha, de William Somerset Maugham, o personagem principal é um jovem americano da alta burguesia que abandona todos os confortos materiais em busca do sentido da vida. Mas o inusitado é que enquanto as pessoas ao seu redor estão preocupadas com luxo, dinheiro, enriquecimento, negócios, viagens, festas e diversão, ele procura as respostas para suas dúvidas dentro de si mesmo. É um homem que procura a verdade, sabedoria e, sobretudo, a paz. Esta é sua felicidade, ou melhor, sua meta de felicidade.
O livro fala que o caminho para a felicidade é tão difícil quanto andar sobre o fio de uma navalha. De fato, o título da obra é uma expressão retirada pelo autor de um dos upanixades (textos sagrados da Índia): "Difícil é andar sobre o aguçado fio de uma navalha; e árduo, dizem os sábios, é o caminho da Salvação."
O livro, originalmente publicado em 1944, ganhou várias versões para o cinema, mas nunca assisti nenhuma delas. Como admiro o autor, sou suspeito para falar, mas considero O Fio da Navalha uma obra de arte da literatura, uma leitura estimulante (perdoem-me o clichê!), risos...
*Serviço
MAUGHAM, William Somerset. O Fio da Navalha. 1944.
Bastidores II
Albertine: - Aquele livro, Mulheres que correm com lobos, fala disso. Desse sonho com o homem estranho...
(...)
Tuti: - Como é?
(...)
Albertine - É...é um livro que fala sobre o inconsciente feminino. Conta que toda mulher tem sonhos com um homem estranho, intruso, sempre que está mudando algo em sua vida, crescendo, evoluindo. Como que para inibí-la de pensar diferente.
O Milagre Americano
Por Albertine
Talvez seu nome fosse uma novidade para mim em decorrência da má vontade que tenho com tudo que vem dos norte-americanos. Fui apresentada ao escritor David Henry Thoreau por seu dedicado discípulo Alex Supertramp, em meados das águas de março. O encontro foi fortuito e intenso, no meio de uma sessão de cinema, no fim de um domingo qualquer.
Thoreau me surpreendeu pela sua bravura em descobrir do que ele era feito. Isolou-se por dois anos, em uma cabana, construída por ele mesmo, na beira de um lago em Concord, Massachusetts. Muitos o chamaram de covarde acusando o seu isolamento de fulga. Eu discordo. Embrenhar-se em si só pode ser um ato solitário. Fica impossível descobrir o que você é no meio de tanta gente ditando o que você deveria ser.
“É preciso alugar ou ocupar algum espaço como grileiro, cultivar uma safra pequena e comê-la em seguida. É preciso viver sozinho e depender de si mesmo, sempre com a mala pronta, prestes a recomeçar, sem muitos vínculos.”
Mas esse homem anacrônico jamais renunciou ao mundo, pelo contrário, ele dizia que não tinha a menor pretensão em torná-lo um lugar bom para se viver, mas só queria viver nele, sendo ele bom ou ruim. As ações solitárias de Thoreau nada têm de individualistas, tanto é, que ele foi preso ao deixar de pagar seus impostos em protesto à manutenção da escravidão nos EUA e por não aceitar que seu dinheiro financiasse a guerra que o governo americano havia travado contra o México.
“Sob um governo que prende qualquer pessoa injustamente, o verdadeiro lugar de um homem justo também é um cárcere. O único (lugar) que Massachusetts providenciou para seus espíritos mais livres e menos desesperançados, é sua prisão, é ser preso e afastado do Estado por ação do Estado, assim como os homens que já haviam se afastado por seus princípios. É lá que o escravo fugitivo, o prisioneiro mexicano em liberdade condicional e o índio que vieram protestar contra as injustiças sofridas por suas raças o encontrarão.”
Mesmo Fernando sendo um consumista assumido, ele demonstrou, timidamente, uma certa identificação com o autor quando eu o apresentei no Clássicos. Mais pela natureza bucólica de ambos, do que pelo desprendimento de Thoreau. Talvez o último ficasse se perguntado por que diabos Fernando possui uma dúzia de vídeo games em casa, se existem maneiras muito mais saudáveis de se esconder do mundo?! Mas jamais o condenaria, como eu faço sempre que o vejo. Thoreau se preocupava intensamente com o direito inalienável da busca pela Felicidade, expresso na Constituição dos EUA. Ele defendia a importância de cada indivíduo se dedicar a descobrir, por si mesmo, a real mensagem inerente a essa expressão.
*Serviço
KIRK, Andrew. Desobediência Civil de Thoreau; tradução de Débora Landsberg. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.
Bastidores IV
Tuti: - Conheci um cara hoje, que já com quase 60 anos, ainda tem planos de abrir uma indústria. Isso depois de ser jornalista, dono de restaurante, e sei lá mais o que. Fenomenal a capacidade dele de fazer planos e a gente, aqui com a vida inteira pela frente, sem sonhar.
(...)
Albertine: - É muito medo da vida também.
(...)
Tuti: - É o nosso comodismo. Aquele raciocínio, de que não vou dar minha cara a tapa. Medo, medo de se frustrar.
Cli?
Por Erica Abe
Paul Klee viveu 61 anos, mas talvez apenas um destes, especificamente 1937, já seria suficiente para eu decidir levá-lo para o Clássicos do Abajour. Há mais ou menos seis anos eu procurava avidamente um desenho para a minha primeira tatuagem quando, desavisadamente, me deparei com A Revolução do Viaduto. Achei que ali tinha encontrado meu tão sonhado desenho. Muito tempo se passou, fiz duas tatuagens totalmente diferentes do tal quadro, mas confesso que ele ainda faz parte dos meus delírios.
O livro em que encontrei a tão adorada imagem, escrito por Susanna Partsch, há uma breve explicação sobre a obra. Seguem as partes fundamentais, digamos assim:
“Durante muito tempo, os críticos era unânimes em afirmar que Klee tinha mostrado aqui a ameaça que constituem os movimentos totalitários. Os arcos avançam, assim ‘anunciando um mau agouro ao observador’; um mundo chegado à maturidade vê-se espezinhado e destruído. (...)
Em 1987, Werckmeister pos em causa, e com razão, essas interpretações. Os arcos, nas cores amarela, laranja, rosa e vermelha, uns atarracados, outros finos e altos e outros ainda com pilares de diâmetros desiguais, não simbolizam um movimento totalitário, que se distingue precisamente pela uniformidade e conformismo e exclui toda a originalidade. Aqui, trata-se, manifestadamente, de indivíduos todos diferentes uns dos outros. (...)
Mas os arcos representados por Klee não se conformam com isso. Recusam-se a continuar a ser apenas um elo da cadeia e cada um deles procura existir por si próprio. Por isso eles ‘saem da ordem’, eles fazem a ‘revolução’. Cada um por si, e não a passo certo, vão ao encontro do observador. Estão conscientes da sua força, devido à sua superioridade numérica e, se gostariam de espezinhar qualquer coisa, seria a ordem que os obrigou à conformidade.”
*Serviço
Partsch, Susanna. KLEE. Ed. Taschen. Alemanha, 2000.
Bastidores IV
Fernando: - É a primeira vez que alguém traz um quadro pro Clássicos.
(...)
Ju: - É verdade, mas é também a primeira vez que trazem um postal, né Fernando?!!
(...)
Tuti: - Música, livros, revistas em quadrinhos... tudo isso já veio pra cá.
(...)
Daniel: - Ah, vou ver se trago alguma coisa diferente também.
