Por Albertine
Depois que vi o filme “Na natureza selvagem”, fiquei catatônica por uns quatro dias. Eu não habitava mais o meu corpo. Só era capaz de executar as funções mais vitais. Estava parecendo com Darrell Standing quando submetido à camisa de força em o “Andarilho das estrelas”, livro de Jack London.
Sim, eu sou uma pessoa impressionável, a minha relação com o mundo, em um primeiro contato, ocorre com base no “ou eu amo, ou eu odeio.” Sinto, depois penso a respeito. E o meu encontro com a história de Christopher McCandless, principal personagem de “Into the Wild”, título original, não poderia ter sido diferente.
Não vou contar o filme aqui, mas o recomendo a todos aqueles que se sentem desajustados neste planeta, que acreditam que está tudo fora de ordem, que não entendem como as coisas (“things, things, things”) podem ser mais importantes do que as pessoas. Quem sabe, vocês não se sintam menos solitários ao assistir a história de alguém que abriu mão do “american way of life” e botou o pé na estrada para descobrir o seu jeito de fazer a vida.
Além de Chris, você poderá descobrir Thoreau e rever velhos conhecidos como Tolstoi e Jack London. Reunidos em uma espantosa sincronicidade, mesmo vivendo em épocas distintas, alertando para assuntos tão atuais, como a necessidade urgente do homem se reintegrar à natureza. Todos acompanhados pela trilha sonora de Eddie Wedder. O roteiro partiu de um livro de Jon Krakauer, jornalista americano que se sentiu impelido a desmistificar a idéia de que o jovem, que dá vida ao longa, era apenas mais um descompromissado aventureiro.
E foi exatamente este livro que eu levei para o Clássicos. Na verdade, é o quarto encontro consecutivo para o qual trago algo relacionado ao filme. Um pouco de compulsão da minha parte? Talvez. Acho que tenho uma intensa necessidade em compartilhar. Deve ser a mesma motivação que leva um crente a ficar pregando na parada de ônibus ou no meio do carnaval de rua.
Já ouvi opiniões muito divergentes sobre a trajetória de Christopher McCandless. Alguns o acham ingênuo e passional, fazendo quorum à crítica de O Globo. Mas o que se esperar de um veículo cartesiano e neoliberal que adora estampar a última tecnologia em cirurgia plástica para acabar com as rugas que você levou anos para conquistar? ... Outros, como eu, se surpreenderam com a coragem e se identificaram com o seu despreendimento.
Maldito do imbecil que disse que a democracia é a forma mais justa de governo. Qualquer homem mais correto que seus vizinhos já constituiu a maioria de um só, já dizia Thoreau.
Em nome da democracia, deixo-os com um trecho do livro que deu origem ao “Na natureza selvagem”. Dêem vocês o veredicto.
Bom Apetit!
“Em relação a quando visitarei a civilização, não será breve, acho. Não me cansei da natureza; ao contrário, deleito-me cada vez mais com sua beleza e com a vida errante que levo. Prefiro a sela ao bonde, e o céu salpicado de estrelas a um teto, a trilha obscura e difícil, levando ao desconhecido, a qualquer estrada pavimentada, e a paz profunda do campo ao descontentamento gerado pelas cidades. Você me censura por ficar aqui, onde sinto que é o meu lugar e que sou uno com o mundo a minha volta?
É verdade que sinto falta de companhia inteligente, mas há tão poucos com quem compartilhar as coisas que significam tanto para mim que aprendi a me conter. É suficiente que eu esteja cercado de beleza...
Mesmo com base em sua descrição insuficiente, sei que não conseguiria suportar a rotina e o tédio da vida que você é forçado a levar. Não acho que poderei algum dia fixar residência. Já conheci demais as profundezas da vida e preferiria qualquer coisa a um anticlímax.”
*Serviço
KRAKAUER, Jon. Na natureza selvagem; tradução Pedro Maia Soares. – São Paulo: Companhia das Letras, 1998.