quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Home sweet home
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Sobre Marrakech
Imaginem uma praça onde existam dezenas de barraquinhas de teto branco e esfumaçantes,
trânsito sem direçao definida misturando bicicletas, mobiletes, ônibus, charretes e pessoas, encantadores de cobras, figuras com roupas semelhantes às de Maracatu vendendo água armazenadas em sacos de pele de camelo e laranjas: Praça Djama el Fna.
Os fiéis vão às Medinas orar. E os judeus têm um pouco mais de paz nessa hora. Mas ainda se pode tomar um suco de laranja... Das dezenas de barracas, metade é de suco de laranja. Os melhores de minha vida. E são infinitos. Inshala.
Repita o refrão 150 vezes e multiplique pelos 1 036 500 habitantes. Isso dá a idéia da agradabilidade da aproximação.
O centro da cidade é murado, separado pelos muros da Medina. Ali dentro tudo acontece.
Só existem mercados de rua onde vc pode encontrar pães à venda empilhados no chão, pode escolher a galinha de sua preferência (que será acolhida por Alá diante de seus olhos), seus objetos feitos à mão (ou com o pé - um senhor entalhava a madeira com o pé) ou comer uma saborosa linguiça de pâncreas em um lugar onde a tampa do lixo é uma tampa de toilette ou comprar seu cobertor de pele de camelo. Carpinteiros, mercados da Medina (a serem ainda destruídos por Jesus para mostrar sua fé), túnicas e burcas, casas e estruturas feitas em areia e palha, cosméticos em seu estado puro (batom em Beriberi: pigmento marrom espalhado sobre uma superfície de cerâmica acionada pelo poder do cuspe. Passar na boca com o dedo.) Incrível. museu a céu aberto.
Muita terra árida com rios de árvores (definiçao de meu flatmate, Gui).
Paisagens verdes localizadas em contraste com as casas camufladas. Todas as construções no Marrocos são rosadas cor-de-terra. Tudo é rosa - a semente histórica da Barbie. À primeira vista não se vêem, à segunda estão ali. As cidades maiores são a modo tradicional: prédios, lojas, etc..
Destaque para os Kasbahs, contruções gigantescas, tipo fortalezas que protegem a cidade, que foram location de clássicos como Ben Hur, Babel, A Múmia - sim, a múmia é um classico - e outros.. Lindos! Mas impedidos de visitação pela concentração de pessoas que pedem dinheiro.
(depois eu entro neles vendo "A Múmia").
O deserto é algo de sensacional. E andar de camelo dói. 5 minutos são suficientes para um treinamento de abertura completa. Certamente os humanos de sexo masculino têm mais dificuldades. A experiência de comer com os beduínos, dormir olhando as estrelas cadentes e entrar na tenda correndo por causa da tempestade de areia é indescritível. Alá salve as tempestades de areia. De repente a noite fica branca e se sente o vento mais sólido.
- visão, roupas e higiene pessoal obviamente prejudicadas - E se acorda embaixo de uma duna, mesmo dentro da tenda.
Pôr do sol laranja e azul, figuras com turbantes coloridos, meia lua arábica, gosto e cheiro de chá de menta, tenda de tapetes, areia quentinha, barulho de ventania, milhões de grãos voadores e pêlo de camelo.
Sensações do deserto de Zahora.
De volta à nossa Marraquexe, mais cuscuz e Tajine (carne assada em potes de ceramica de forma particular, sempre à 35 especiarias), chá de menta e batuques de tambor misturado com flautas dos encantadores.
O trânsito segue muito livre - o direito de ir e vir - com personalização de direções, mesmo que isso inclua você no caminho.
Tudo com muita cor e especiarias. Desistam do Texas, o Marrocos sim é que uma terra sem lei.
beijos,
terça-feira, 17 de junho de 2008
"Maioria de um só"
Por Albertine
Depois que vi o filme “Na natureza selvagem”, fiquei catatônica por uns quatro dias. Eu não habitava mais o meu corpo. Só era capaz de executar as funções mais vitais. Estava parecendo com Darrell Standing quando submetido à camisa de força em o “Andarilho das estrelas”, livro de Jack London.
Sim, eu sou uma pessoa impressionável, a minha relação com o mundo, em um primeiro contato, ocorre com base no “ou eu amo, ou eu odeio.” Sinto, depois penso a respeito. E o meu encontro com a história de Christopher McCandless, principal personagem de “Into the Wild”, título original, não poderia ter sido diferente.
Não vou contar o filme aqui, mas o recomendo a todos aqueles que se sentem desajustados neste planeta, que acreditam que está tudo fora de ordem, que não entendem como as coisas (“things, things, things”) podem ser mais importantes do que as pessoas. Quem sabe, vocês não se sintam menos solitários ao assistir a história de alguém que abriu mão do “american way of life” e botou o pé na estrada para descobrir o seu jeito de fazer a vida.
Além de Chris, você poderá descobrir Thoreau e rever velhos conhecidos como Tolstoi e Jack London. Reunidos em uma espantosa sincronicidade, mesmo vivendo em épocas distintas, alertando para assuntos tão atuais, como a necessidade urgente do homem se reintegrar à natureza. Todos acompanhados pela trilha sonora de Eddie Wedder. O roteiro partiu de um livro de Jon Krakauer, jornalista americano que se sentiu impelido a desmistificar a idéia de que o jovem, que dá vida ao longa, era apenas mais um descompromissado aventureiro.
E foi exatamente este livro que eu levei para o Clássicos. Na verdade, é o quarto encontro consecutivo para o qual trago algo relacionado ao filme. Um pouco de compulsão da minha parte? Talvez. Acho que tenho uma intensa necessidade em compartilhar. Deve ser a mesma motivação que leva um crente a ficar pregando na parada de ônibus ou no meio do carnaval de rua.
Já ouvi opiniões muito divergentes sobre a trajetória de Christopher McCandless. Alguns o acham ingênuo e passional, fazendo quorum à crítica de O Globo. Mas o que se esperar de um veículo cartesiano e neoliberal que adora estampar a última tecnologia em cirurgia plástica para acabar com as rugas que você levou anos para conquistar? ... Outros, como eu, se surpreenderam com a coragem e se identificaram com o seu despreendimento.
Maldito do imbecil que disse que a democracia é a forma mais justa de governo. Qualquer homem mais correto que seus vizinhos já constituiu a maioria de um só, já dizia Thoreau.
Em nome da democracia, deixo-os com um trecho do livro que deu origem ao “Na natureza selvagem”. Dêem vocês o veredicto.
Bom Apetit!
“Em relação a quando visitarei a civilização, não será breve, acho. Não me cansei da natureza; ao contrário, deleito-me cada vez mais com sua beleza e com a vida errante que levo. Prefiro a sela ao bonde, e o céu salpicado de estrelas a um teto, a trilha obscura e difícil, levando ao desconhecido, a qualquer estrada pavimentada, e a paz profunda do campo ao descontentamento gerado pelas cidades. Você me censura por ficar aqui, onde sinto que é o meu lugar e que sou uno com o mundo a minha volta?
É verdade que sinto falta de companhia inteligente, mas há tão poucos com quem compartilhar as coisas que significam tanto para mim que aprendi a me conter. É suficiente que eu esteja cercado de beleza...
Mesmo com base em sua descrição insuficiente, sei que não conseguiria suportar a rotina e o tédio da vida que você é forçado a levar. Não acho que poderei algum dia fixar residência. Já conheci demais as profundezas da vida e preferiria qualquer coisa a um anticlímax.”
*Serviço
KRAKAUER, Jon. Na natureza selvagem; tradução Pedro Maia Soares. – São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
domingo, 8 de junho de 2008
As memórias do livro
Por Fernando Silva
Sinopse: Da Espanha de 1480 até a enfraquecida Sarajevo de 1996, um livro sagrado de valor incalculável é caçado por fanáticos políticos e religiosos. Seu destino está nas mãos de uma talentosa conservadora de livros a charmosa protagonista Hanna, e sua recuperação resulta em um mistério histórico arrebatador.
Quando Hanna é chamada a Sarajevo para examinar o Hagadá, um código judaico do século XV que havia desaparecido durante a guerra da Bósnia, ela não pode acreditar que um documento tão maravilhoso estava preservado depois de tantas guerras e tanto preconceito. A partir de pistas encontradas no próprio manuscrito uma asa de inseto, manchas de vinho e um pêlo branco Hanna desvenda uma série de enigmas fascinantes e reconstrói as memórias do livro. E o resultado é um verdadeiro épico, uma corrida contra o tempo para revelar o passado e dar espaço à crônica da história do livro, enquanto Hanna procura a cura para uma criança vítima da intolerância da guerra, um amor impossível, sua própria identidade e proteção: do Hagadá e de sua própria vida.
Bem, estou aqui pensando que, definitivamente, eu não sei escrever resenhas. Tampouco sei descrever filmes que vejo ou livros que leio. Eu sempre me concentro em detalhes insignificantes que, para muitos , seriam extremamente desnecessários mas, para mim, fazem todo sentido, Por isso sempre percebo que as pessoas me olham de um jeito estranho quando eu tento descrever o que vejo ou leio.
Enfim, eu só gostaria de lembrar a todos que amanhã a Romênia fará a sua grande estréia na Eurocopa contra a ridícula seleção da França. Me falta inspiração para qualquer outra intervenção. Espero me sair melhor no próximo post!
OBS: A sombra do vento é um dos melhores livros que já li. (2)
domingo, 1 de junho de 2008
(Des) Apego
Fe - Me decepcionei muito com esse livro. Queria trazer ele pra cá e também fazer uma resenha.
Dani - Faça a resenha, vá no Sebinho e venda o livro.
Albertine - Exatamente.
Fe - Não, não, isso eu não posso.
Dani - Mesmo quando você não gosta do livro, você não consegue se desfazer dele?
Albertine - Fernando, você tem que se desapegar. Depois do Into the Wild você não aprendeu nada?
Fe - Não, não, não, não...com livro não....o máximo que eu posso fazer é doar para a biblioteca.
Tuti – Isso. Aproveita e leva aquele outro livro que eu ganhei e detestei, “Livro dos livros perdidos”....(risos)
* * *
Tuti – Mas, Fe, por que trazer uma coisa que você não gostou pra cá?
Fe – Por que a idéia não é trazer uma coisa com a qual a gente teve contato recentemente?
Albertine – É, ou que você tenha lembrado de já ter lido....
Tuti – Só fiquei curiosa com a sua escolha.
Albertine – Mas é útil dar uma dica do tipo “ó, não leiam tal coisa...”
Tuti – Quem realmente quiser ler, pode pegar o do Fe emprestado, começar a ler, desistir e devolver... (risos)
Albertine – Eu confio na opinião dos meus amigos.
Fe – Mas eu não sei. Eu quero emprestar esse livro pra alguém, sem falar o que eu achei, pra saber a opinião da pessoa.
Tuti – Ei, você, estanho, lê esse livro aí e depois me diz o que achou....
* * *
Fe – Ei Ju, não faço uma orelha em um livro nunca, assim como você fez agora.
Albertine – Eu faço. Eu dobro, eu risco, eu cheiro....
Fé – Mas por que fazer isso?
Albertine – Você já viu aquele filme que o cara viaja pelos vinhedos da Califórnia? Sideways? Tem uma coisa que eu gosto muito que é a cena em que ele guarda um vinho, durante a vida inteira, pra tomar num momento muito especial, e, de repente, ele descobre que o valor daquele vinho é relativo. O vinho só tem o valor que ele investe nele. Então, o protagonista resolve tomá-lo com um hamburguer de um fast food qualquer. Com o livro é a mesma coisa, depende do valor que você está emprestando pra ele.
Fe – Mas é que se todo mundo começar a fazer isso, daqui cem anos a gente não vai ter memória da nossa época.
Albertine – Mas é que eu não gosto de ficar emprestando minhas coisas pra todo mundo...(risos) E tem mais, vai ficar tudo armazenado na internet mesmo.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Meu Querido Estranho

Bastidores I
- O Dani veio só pra aparecer no blog! - acusa um.
(...)
- Ele só quer divulgar o livro dele – emenda outro.
(...)
Brincadeiras à parte, além de Thoreau, Somerset, Neruda e Paul Klee, o Clássicos do Abajour desta semana contou com a presença ilustre de um de seus membros mais antigos, Daniel Couri. E para nos matar de inveja, acaba de lançar seu primeiro livro, “Made in Suécia: o paraíso pop do ABBA”. Um chiqueté. Ele dispara na corrida da trilogia "Plante uma árvore, faça um filho e escreva um livro antes de morrer." A nossa vantagem está no fato de ser tecnicamente inviável ele fabricar um filhote. (piada infame)
“A insustentável leveza do ser”
Por Daniel Couri
No último livro que li, O Fio da Navalha, de William Somerset Maugham, o personagem principal é um jovem americano da alta burguesia que abandona todos os confortos materiais em busca do sentido da vida. Mas o inusitado é que enquanto as pessoas ao seu redor estão preocupadas com luxo, dinheiro, enriquecimento, negócios, viagens, festas e diversão, ele procura as respostas para suas dúvidas dentro de si mesmo. É um homem que procura a verdade, sabedoria e, sobretudo, a paz. Esta é sua felicidade, ou melhor, sua meta de felicidade.
O livro fala que o caminho para a felicidade é tão difícil quanto andar sobre o fio de uma navalha. De fato, o título da obra é uma expressão retirada pelo autor de um dos upanixades (textos sagrados da Índia): "Difícil é andar sobre o aguçado fio de uma navalha; e árduo, dizem os sábios, é o caminho da Salvação."
O livro, originalmente publicado em 1944, ganhou várias versões para o cinema, mas nunca assisti nenhuma delas. Como admiro o autor, sou suspeito para falar, mas considero O Fio da Navalha uma obra de arte da literatura, uma leitura estimulante (perdoem-me o clichê!), risos...
*Serviço
MAUGHAM, William Somerset. O Fio da Navalha. 1944.
Bastidores II
Albertine: - Aquele livro, Mulheres que correm com lobos, fala disso. Desse sonho com o homem estranho...
(...)
Tuti: - Como é?
(...)
Albertine - É...é um livro que fala sobre o inconsciente feminino. Conta que toda mulher tem sonhos com um homem estranho, intruso, sempre que está mudando algo em sua vida, crescendo, evoluindo. Como que para inibí-la de pensar diferente.
O Milagre Americano
Por Albertine
Talvez seu nome fosse uma novidade para mim em decorrência da má vontade que tenho com tudo que vem dos norte-americanos. Fui apresentada ao escritor David Henry Thoreau por seu dedicado discípulo Alex Supertramp, em meados das águas de março. O encontro foi fortuito e intenso, no meio de uma sessão de cinema, no fim de um domingo qualquer.
Thoreau me surpreendeu pela sua bravura em descobrir do que ele era feito. Isolou-se por dois anos, em uma cabana, construída por ele mesmo, na beira de um lago em Concord, Massachusetts. Muitos o chamaram de covarde acusando o seu isolamento de fulga. Eu discordo. Embrenhar-se em si só pode ser um ato solitário. Fica impossível descobrir o que você é no meio de tanta gente ditando o que você deveria ser.
“É preciso alugar ou ocupar algum espaço como grileiro, cultivar uma safra pequena e comê-la em seguida. É preciso viver sozinho e depender de si mesmo, sempre com a mala pronta, prestes a recomeçar, sem muitos vínculos.”
Mas esse homem anacrônico jamais renunciou ao mundo, pelo contrário, ele dizia que não tinha a menor pretensão em torná-lo um lugar bom para se viver, mas só queria viver nele, sendo ele bom ou ruim. As ações solitárias de Thoreau nada têm de individualistas, tanto é, que ele foi preso ao deixar de pagar seus impostos em protesto à manutenção da escravidão nos EUA e por não aceitar que seu dinheiro financiasse a guerra que o governo americano havia travado contra o México.
“Sob um governo que prende qualquer pessoa injustamente, o verdadeiro lugar de um homem justo também é um cárcere. O único (lugar) que Massachusetts providenciou para seus espíritos mais livres e menos desesperançados, é sua prisão, é ser preso e afastado do Estado por ação do Estado, assim como os homens que já haviam se afastado por seus princípios. É lá que o escravo fugitivo, o prisioneiro mexicano em liberdade condicional e o índio que vieram protestar contra as injustiças sofridas por suas raças o encontrarão.”
Mesmo Fernando sendo um consumista assumido, ele demonstrou, timidamente, uma certa identificação com o autor quando eu o apresentei no Clássicos. Mais pela natureza bucólica de ambos, do que pelo desprendimento de Thoreau. Talvez o último ficasse se perguntado por que diabos Fernando possui uma dúzia de vídeo games em casa, se existem maneiras muito mais saudáveis de se esconder do mundo?! Mas jamais o condenaria, como eu faço sempre que o vejo. Thoreau se preocupava intensamente com o direito inalienável da busca pela Felicidade, expresso na Constituição dos EUA. Ele defendia a importância de cada indivíduo se dedicar a descobrir, por si mesmo, a real mensagem inerente a essa expressão.
*Serviço
KIRK, Andrew. Desobediência Civil de Thoreau; tradução de Débora Landsberg. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.
Bastidores IV
Tuti: - Conheci um cara hoje, que já com quase 60 anos, ainda tem planos de abrir uma indústria. Isso depois de ser jornalista, dono de restaurante, e sei lá mais o que. Fenomenal a capacidade dele de fazer planos e a gente, aqui com a vida inteira pela frente, sem sonhar.
(...)
Albertine: - É muito medo da vida também.
(...)
Tuti: - É o nosso comodismo. Aquele raciocínio, de que não vou dar minha cara a tapa. Medo, medo de se frustrar.
Cli?
Por Erica Abe
Paul Klee viveu 61 anos, mas talvez apenas um destes, especificamente 1937, já seria suficiente para eu decidir levá-lo para o Clássicos do Abajour. Há mais ou menos seis anos eu procurava avidamente um desenho para a minha primeira tatuagem quando, desavisadamente, me deparei com A Revolução do Viaduto. Achei que ali tinha encontrado meu tão sonhado desenho. Muito tempo se passou, fiz duas tatuagens totalmente diferentes do tal quadro, mas confesso que ele ainda faz parte dos meus delírios.
O livro em que encontrei a tão adorada imagem, escrito por Susanna Partsch, há uma breve explicação sobre a obra. Seguem as partes fundamentais, digamos assim:
“Durante muito tempo, os críticos era unânimes em afirmar que Klee tinha mostrado aqui a ameaça que constituem os movimentos totalitários. Os arcos avançam, assim ‘anunciando um mau agouro ao observador’; um mundo chegado à maturidade vê-se espezinhado e destruído. (...)
Em 1987, Werckmeister pos em causa, e com razão, essas interpretações. Os arcos, nas cores amarela, laranja, rosa e vermelha, uns atarracados, outros finos e altos e outros ainda com pilares de diâmetros desiguais, não simbolizam um movimento totalitário, que se distingue precisamente pela uniformidade e conformismo e exclui toda a originalidade. Aqui, trata-se, manifestadamente, de indivíduos todos diferentes uns dos outros. (...)
Mas os arcos representados por Klee não se conformam com isso. Recusam-se a continuar a ser apenas um elo da cadeia e cada um deles procura existir por si próprio. Por isso eles ‘saem da ordem’, eles fazem a ‘revolução’. Cada um por si, e não a passo certo, vão ao encontro do observador. Estão conscientes da sua força, devido à sua superioridade numérica e, se gostariam de espezinhar qualquer coisa, seria a ordem que os obrigou à conformidade.”
*Serviço
Partsch, Susanna. KLEE. Ed. Taschen. Alemanha, 2000.
Bastidores IV
Fernando: - É a primeira vez que alguém traz um quadro pro Clássicos.
(...)
Ju: - É verdade, mas é também a primeira vez que trazem um postal, né Fernando?!!
(...)
Tuti: - Música, livros, revistas em quadrinhos... tudo isso já veio pra cá.
(...)
Daniel: - Ah, vou ver se trago alguma coisa diferente também.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Domologia ou Ciência da Velocidade
Bastidores I

Albertine: "- Passei por um dilema no free shop de Buenos Aires. Me deparei com o novo ipod shuffle por $ 79,00. Na hora que vi, pensei: "Lógico que vou levar, por esse preço!". Mas na boca do caixa refleti melhor. O que eu iria fazer com o meu antigo? Eu mal consigo selecionar 512 mb de músicas, imagina 1 giga?! Desisti da compra e fiquei orgulhosa da minha ação depreendida."
(...)
Albertine: "- Em Santiago a moda é ser Pokemon. Uma mistura de emo com punk. Lembra aquele pessoal que freqüenta o Pátio Brasil, só que mais colorido. Eles se amarram em ficar pedindo moedas na porta do supermercado porque a onda é beber com o dinheiro dos outros."
(...)
Albertine: "- A questão da ditadura é um assunto muito presente entre os chilenos. Comentei com eles que no Brasil o assunto é discutido de forma muito restrita."
Tuti: "- Mas você tem que considerar que o Brasil é muito extenso, em algumas regiões as pessoas nem perceberam que estavam em um regime fascista. A minha mãe mesmo comenta que em Presidente Olegário, interior de Minas, as pessoas não tinham a menor idéia do que estava acontecendo."
Fernando: "- Pior é que a crise econômica, que ocorreu logo após a abertura política, foi entendida pela população como uma falha do novo governo e não como conseqüência das medidas tomadas pelos militares. Por isso, existe até uma certa defesa por parte de alguns."
Excesso de Bagagem
Por Albertine
Voltei de viagem impregnada pelas controvérsias e identidades latino americanas. Tive que deixar de lado os textos de Neruda, Allende, Borges... porque estava ansiosa demais para compartilhar as minhas impressões de lugares tão próximos geograficamente, mas com características tão distantes. Foram quinze dias entre Buenos Aires, Mendoza, Santiago, Viña Del Mar e Valparaízo. Foi surpreendente perceber como a diferença da língua afastou o Brasil do resto do continente.
Os argentinos se comportam como os europeus, muito sisudos, beirando a falta de educação. Na maioria são brancos, quase transparentes, e andam pelas ruas apressados com seus cortes de cabelo esquisitos. O Caminito, bairro turístico de Buenos Aires, resume bem a idéia que tive dos portenhos. Tudo é muito maquiado, mas logo a poeira sai quando se levanta o tapete. Marcas profundas foram deixadas pela crise político-economica que começou em 2001. Muitas delas passam desapercebidas por turistas hipnotizados pelas vitrines da Florida.
Os chilenos são mais amistosos, de cores variadas, mas o seu ufanismo me deu um pouco de preguiça. Ouvi uma história hilária sobre um certo chileno que se intitulou proprietário da lua, endossado por uma lei que dizia que se você encontrasse algo na rua, que não tivesse dono, poderia se apossar do objeto. Depois que ele morreu, a deixou de herança para os seus compatriotas. Eles juram de pé junto que a lua é território chileno e que o testamento é verídico. Também gostam de exaltar que tiveram a primeira mulher presidente no continente americano, mesmo sendo extremamente machistas, e que os Andes funcionam como uma barreira natural que impede a entrada de parasitas, humanos ou não.
O que me chamou muito a atenção e me deixou emocionada foi a participação inflamada da população nas decisões políticas do país. Jovens, crianças e idosos, chilenos ou argentinos, vão para as ruas manifestar seu descontentamento quando percebem que seus direitos estão sendo ameaçados. Em Buenos Aires, peguei a fumaça que cobriu a cidade, resultado dos pastos queimados pelos agricultores em protesto ao aumento de impostos para exportações de produtos agrícolas. Em Santiago, não foi diferente. Chegando ao hotel, no bairro Bellas Artes, me deparei com uma marcha de 15 mil pessoas exigindo o retorno da distribuição de contraceptivos nos postos de saúde.
Cada viagem é uma experiência única. Vai deixando a nossa bagagem mais pesada, comprimindo o espaço destinado ao preconceito e dando passagem para a tolerância. Mesmo consciente de que cada um tem que descobrir o seu próprio roteiro, tomo a liberdade de colocar aqui algumas dicas de viagem, sem deixar de ressaltar que essas foram as impressões registradas em mim. Boa Viagem.
*Dicas
Surpresas:
No restaurante Desnível você encontra ótima comida e vinhos razoáveis (na verdade não fiquei muito fã dos vinhos argentinos). Um bife de chouriço + vinho San Telmo saiu R$ 35,00 reais para o casal. O lugar é meio pé sujo, o que torna tudo ainda mais divertido. / Endereço: Defensa, 855, San Telmo, Buenos Aires, Argentina.
Na casa de shows/loja de cd Notorious a música é excelente. Muito jazz e soul. Lugar pequeno, mas tem como ligar e fazer reserva. Das cervejas argentinas, só dá para descer a Quilmes e, normalmente, vem quente. Assisti a um sexteto vocal chamado Cabernet Sauvignon. Interessante. Ingresso R$ 6,00. Tem uma estação de metrô a 200 metros. / Endereço: Av. Callao, 966, Recoleta, Buenos Aires, Argentina.
Me arrastaram para uma birosca tipo Faisão Dourado. O pseudo-restaurante chamado J. Cruz foi inaugurado no início dos anos 70. A comida típica do lugar é a Choriana. Uma mistura de filé na cerveja, batata frita e cebola caramelada. O dono diz que o prato dá para duas pessoas, mas alimentou cinco, bem servidas. O mais interessante é que todos os visitantes podem deixar um recado nas paredes, na toalha da mesa, no banheiro... acompanhado de sua foto 3x4. Tudo isso regado a típica música chilena. / Endereço: Valparízo, Chile.
Decepções:
Fiquei arrasada ao chegar no Centro Cultural Borges. Não tinha absolutamente nada sobre o escritor, apesar do site oficial informar que havia uma sala permante. / Endereço: Viamonte esq. San Martín, Buenos Aires, Argentina.
Pegar ônibus em Buenos Aires é pura tristeza , o sistema de transporte público não é integrado. Ninguém sabe informar qual ônibus você tem que pegar e os motoristas são toscos. O negócio e se virar com o metrô e o táxi mesmo.
O tão famoso ponto turístico Caminito é só para inglês ver. Make up total. A primeira impressão desmorona quando você decide vasculhar o La Boca. Muitas famílias vivem em situação de extrema miséria por lá. / Endereço: La Boca, Buenos Aires, Argentina.
Não vi a menor graça em Viña del Mar. Estava bem frio e na praia ainda tinha uma placa que dizia: “Proibido juegos de paletas, futbol, voleyball, comercio ambulante, ingesta de alcohol, consumo de drogas”. Por quê será que a praia estava deserta?! / Endereço: Viña del Mar, Chile.
Melhor passeio:
Se perder em Mendoza e ser encontrada por duas senhoras, professoras, extremamente solícitas. Fizeram um city tour conosco recheado de histórias sobre o terremoto que destruiu a cidade em 1985 e detalhes sobre a ditadura argentina. / Endereço: Mendoza, Argentina.
Sem grana:
Andar de bicicleta pelo Parque San Martin. Tem zoológico, lago artificial e clube de remo. Comprar vinhos na bodega artesanal Dom Arturo, são baratos e um dos poucos tragáveis de Mendoza. Para quem quiser dar um pulo no Chile, melhor ir de ônibus, sai em torno de R$ 30,00. São seis horas acompanhadas pela paisagem enigmática dos Andes.
Achei um absurdo pagar R$ 90,00 reais só para conhecer a Concha y Toro, média de preço cobrada pelas operadoras de turismo. Por isso, resolvi aproveitar o fato do transporte público em Santiago funcionar muito bem. Com pouco mais de R$ 20,00, fui até a vinícola pegando o metrô até a estação Las Mercedes e depois um ônibus que te deixa na porta da Concha y Toro. Esse valor já inclui a entrada.
Bastidores II
Fernando: " - Quando eu ficar mais velho quero comprar um sítio em Frutal. Criar galinhas. Galinhas são bichos fantásticos.”
Albertine: " - Fernando prefere as galinhas do que as pessoas."
(...)
Fernando: "- Quantos vocês calçam?"
Tuti: "- 37."
Albertine: "-36."
Fenando: "- Muito bem."
Tuti: "- Por quê?"
Albertine: "- Você vai nos dar sapatos de presente?"
Fernando: "- Não, só tenho curiosidade em saber quanto as pessoas calçam."
Albetine: "- E você demorou 2 anos para perguntar quanto a gente calça? Me senti desprestigiada."
Sobre viagens, viagens e viagens (ou em busca do seu próprio eu)
Por Érica Abe
“Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da cidade, e nada do que eu lia tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas que me cercavam. (...) Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo de emoção. O humor e a dor estavam entrelaçados a uma soberba simplicidade O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim”.
Ler Pergunte ao Pó, de John Fante, foi uma experiência singular. Pouquíssimas foram as vezes em que eu primeiro vi o filme para, tempos depois, ler o livro (para ser mais exata, um ano e meio). E, se Bukowski foi tomado por uma sensação inebriante ao iniciar a leitura de Pergunte ao Pó, conforme descreve nas linhas acima, retiradas do prefácio da 7ª edição, editora José Olympio, agora foi a minha vez de inebriar-me em palavras tão belas escritas neste pré-livro. Entre tantas outras, este pequeno texto é uma das provas de porque um filme, por mais bem feito que seja, não conseguirá substituir, com exatidão, a leitura de uma obra.
Levar este texto ao Clássicos do Abajour foi uma decisão que tomei logo que encerrei a leitura do Prefácio e iniciei o primeiro capítulo. E, apesar de todo o livro ser de uma delicadeza incrível, aquela primeira parte não saiu da minha memória. E eu precisava partilhar isso. Mas, em uma edição especial do Clássicos, como esta que foi realizada no último dia 3 de maio, eu não poderia me contentar com apenas uma contribuição. Depois de quase dois meses, eu tinha muita coisa para falar. Muitas delas ainda ficaram por dizer, é verdade, mas ler algumas linhas de Paul Virilio se fazia extremamente necessário. E como ocorre em muitas dos nossos encontros, suas citações tinha extrema ligação com o filme Into the Wild indicado pela Ju. Eis algumas delas:
“O poder está ligado à riqueza. Mas se esquece de dizer que a riqueza está ligada à velocidade. (...)Quando se diz que tempo é dinheiro, quer-se dizer que a velocidade é poder.”
“Ora, o homem não vive somente de ar puro, de água, de carne; nós vivemos também de distância. Temos necessidade de distância, senão é o encarceramento, o sentimento de aprisionamento. Michel Foucault disse que o século XVIII era o século do grande aprisionamento. Não é, pois ele ainda está diante de nós. Amanhã, a humanidade vai se sentir aprisionada numa Terra infinitamente pequena, sabendo que não há nenhum planeta habitável à volta. (...) Somos proporções. As proporções fazem parte da vida, tanto geográficas como humanas, fisiológicas.”
“Mas um trem não é uma viagem. Se você vai a Santiago de Compostela a pé, com seu bastão, é uma viagem. Se você entra num vagão de trem, você não está em viagem, está no tráfego.”
“Não há ateus hoje. Há aqueles que crêem em Deus e os que crêem no deus-máquina, por meio da ciência. Não se pode idealizar a ciência. Do contrário ela não será uma sabedoria, mas um delírio místico, deus ex machina.”
*Serviço
FANTE, John. Pergunte ao pó; tradução de Roberto Muggiati. 7 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
EICHENBERG, Fernando. Entre aspas:Diálogos Contemporâneos. 1 ed: Globo, 2006.
Bastidores III
Tuti: “- John Fante vivia numa pindaíba da porra. Só se relacionava com mulheres doidas. Daí, quando ele ganhava $ 7,00, o que para a época era uma fortuna, ele ia lá e gastava $ 6,00 com uma prostituta.”
(risos)
Albertine: “- Já entendi porque o Bukowski gosta dele.”
Fernando: “- Eu já tinha ouvido falar do Fante, acho que foi naquele livro “Livro dos livros perdidos”, do Stuart Kelly. Fala sobre livros que não foram escritos ou que se perderam por algum motivo. Ele trás vários autores desde a época clássica até o século XX.
Tuti: “- Você gostou desse livro?” (pergunta com uma cara de quem comeu limão azedo)
Fernando: “- Aaaah, eu descobri coisas que eu não sabia.”
(risos)
Tuti: “- Lógico, você só descobre coisas que necessariamente você não sabia.”
(mais risos)
Fernando: “- Tem uma história sobre o Dante. Dizendo que não foi ele quem escreveu os últimos livros da “Divina Comédia”.”
Tuti: “- Não? Então, quem escreveu?”
Fernando: “- O Boccaccio, na biografia de Dante, conta uma história de que o escritor teria aparecido, depois de morto, para um de seus filhos e indicado o local onde estavam escondidos os últimos livros. Mas, na verdade, ninguém sabe quem realmente escreveu.”
Tuti: “- Se eu soubesse que você ia comprar 'ESSE' livro, tinha te dado o meu. Detestei.”
Fernando: “- É, mas estou vendo aqui, não tem nada sobre John Fante. Mas é impressionante saber que pouca coisa sobrou dos textos gregos. Quase tudo se perdeu. Aqui tem uma história sobre um escritor clássico chamado Menandro. Havia um grande interesse em achar algum texto de autoria dele, mas tudo havia se perdido. No início do século XX, acharam uma peça, só que o texto era fraquíssimo.”
Albertine: “- Ou seja, anos de buscas jogados fora.”
Fernando: "- Mas, na verdade, o Menandro quebrou alguns paradigmas do teatro grego, porque trouxe personagens comuns para as peças. Até então, só eram representadas figuras míticas. Daí, o autor faz uma comparação interessante, seria como trazer um homem das cavernas para sentar em uma mesa de jantar e querer que ele usasse talheres.”
O Blog
Por Fernando Silva
É tarde de sábado e três pessoas conversam sobre blogs. Duas delas demonstram uma "empolgação" acima do comum, menos uma. Quando uma gravação da conversa é proposta, a situação fica ainda mais complicada. "-Pessoas, não tenho culpa de ser assim, tão "desconfiado"." Deve ser um trauma de infância, ou talvez, seja só porque eu sou mineiro mesmo e isso é algo de "nascença".
Bem, hoje é sábado e eu tenho um prazo a cumprir. Confesso que no início a idéia de postar algo era como cumprir um trato, mas o último post da Ju foi tão incrível que a desconfiança inicial com relação a este blog deu lugar a um interesse sem precedentes na história recente da humanidade.
Bem, se é para escrever algo, preciso de um iogurte. Aliás, após fazer as compras da semana, pude constatar os alimentos pressionando a inflação cada vez mais. E nem me venham com idéias a favor dos biocombustíveis. Para mim, a cana de açucar sempre será a culpada. Quem anda por 10 quilômetros de estrada de chão vendo só cana onde antes se via árvores e currais, sabe muito bem do que estou falando.
Enfim, hoje eu vim aqui, na verdade, para falar sobre os concertos de Brandenburgo. Queria achar um texto interessante sobre, mas não encontrei nada. Eu não tenho capacidade de analisar cada concerto, eu só gosto deles assim, me fazem bem.
PS1: Eu não prefiro galinhas do que pessoas. Depende da galinha e depende da pessoa.
PS2: Aposto que a Ju pensou que eu não iria postar.
PS3: Postei esse texto de meu novo EEE PC e ele é demais.
http://www.youtube.com/watch?vZpf38dQpMzk