segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Com a palavra: o perdedor.

Por Albertine

Como seria a História contada por quem perdeu a Guerra?



Quantos mitos seriam quebrados, ídolos execrados, algozes absolvidos?

Tentar responder essas perguntas, e muitas outras que esse assunto implica, é um exercício impreciso. Uma previsão que se torna cada vez mais exotérica na medida em que o fato envelhece. Contudo, é estritamente necessária. Não para que se faça justiça à memória de muitos, mas, principalmente, para que esse processo de desconstrução nos permita entendermos melhor quem realmente somos.

Existem tentativas “alternativas” de desvelar a História Oficial, mas com um alcance ainda muito restrito. Como é o caso dos filmes “Todos os Homens do Presidente”, sobre o caso Watergate, e “Tiros em Columbine”, a respeito das ações escusas dos EUA após o 11 de setembro. Mais recentemente, a jornalista francesa Marie-Monique Robin também tentou desmascarar o “estado atual das coisas” com o livro-reportagem “O mundo segundo a Monsanto”, que expõe as atividades abusivas da fabricante de transgênicos.

Com um tom mais lírico, mas não menos documental, o escritor Eduardo Galeano também participa desse processo de levantar o véu da aparência das coisas. Em seu mais recente livro, “Espelhos - uma história quase universal", ele traz 600 relatos, reais ou alegóricos, costurando os fatos que definiram a humanidade, sempre do ponto de vista dos “perdedores”. Começa com o nascimento do homem, quando ele faz questão de lembrar que surgiu na África. E vai até fatos mais recentes como a invasão do Iraque. Interessante perceber que na região onde nasceu a escrita, os EUA arbitrariamente resolveram reescrever a realidade. Daqui a pouco, nossas crianças irão aprender na escola que a escrita nasceu no Texas.

Fica a minha modesta tentativa de divulgar as outras versões dos nossos processos históricos e um trechinho do livro que apresentei no Clássicos:

“Há mais de meio século, o Uruguai não ganha um Campeonato Mundial de futebol, mas durante a ditadura militar compensou e conquistou outros duvidosos troféus: foi o país que, proporcionalmente, teve o maior número de presos políticos e torturados.

A prisão com o maior número de presos foi chamada de “Liberdade”. Como rendendo homenagem ao seu nome, palavras presas fugiram de suas grades; escorreram por elas os poemas que os presos escreviam em minúsculos papéis de enrolar cigarros...como este.

Às vezes chove e te quero. Às vezes sai Sol e te quero. A prisão é às vezes...sempre te quero.”

domingo, 11 de janeiro de 2009

Back, baby!

Depois de um tumultuado final de ano, a primeira sessão do Clássicos de 2009 foi realizada ainda na primeira quinzena do ano. Na vida dos atuais integrantes do grupo, muita coisa mudou. Apesar disso, para mim o Clássicos continua sendo aquele refúgio que você vai quando precisa dar uma pausa na realizada caótica e encontrar um pouco de "mais do mesmo". Já ouvi relatos de que isso seria a pequena e pacata cidade interiorana de um estado qualquer, ou uma fazenda, uma praia, uma cachoeira. Para mim é uma sala com dezenas de videogames, cheia de livros e uma querida gata.

Para esse primeiro encontro, logo de cara pensei em levar O Bosque do Espelho, do sensacional Alberto Manguel. Adquiri o livro há alguns anos e tive a felicidade de tê-lo autografado pelo autor na Feira do Livro de 2006. Relutei. Abri meia dúzia de lirvros na estante e decidi: tinha que ser ele

Em um um livro que fala sobre Alice no país das Maravilhas, escolhi um trecho em que ele trata da Bela e a Fera. Ou Eros e Psiquê. Segue uma das melhores partes:

"Alguns anos depois, quando pude comparar minhas leituras com a sensação real de minha mão acariciando pela primeira vez um corpo amado, tive de admitir que, pelo menos uma vez, a literatura não estava à altura. Contudo, a excitação daquelas páginas proibidas permanecia. Os adjetivos ofegantes, os verbos impudentes, talvez não fossem úteis para descrever minhas próprias emoções confusas, mas transmitiam para mim, então e naquele lugar, algo corajoso, espantoso e singular.

Essa singularidade, descobriria mais tarde, marca todas as nossas experiências essenciais. Escreve Aldous Huxley em As portas da percepção:

"Vivemos juntos, influímos nos outros e reagimos uns aos outros, mas sempre e em todas as circunstâncias estamos sozinhos. Os mártires entram de mãos dadas na arena, mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes tentam desesperadamente fundir seus êxtases insulados numa única autotranscendência; em vão. Por sua própria natureza, cada espírito encarnado está condenado a sofrer e gozar em solidão".