Como seria a História contada por quem perdeu a Guerra?

Quantos mitos seriam quebrados, ídolos execrados, algozes absolvidos?
Tentar responder essas perguntas, e muitas outras que esse assunto implica, é um exercício impreciso. Uma previsão que se torna cada vez mais exotérica na medida em que o fato envelhece. Contudo, é estritamente necessária. Não para que se faça justiça à memória de muitos, mas, principalmente, para que esse processo de desconstrução nos permita entendermos melhor quem realmente somos.
Existem tentativas “alternativas” de desvelar a História Oficial, mas com um alcance ainda muito restrito. Como é o caso dos filmes “Todos os Homens do Presidente”, sobre o caso Watergate, e “Tiros em Columbine”, a respeito das ações escusas dos EUA após o 11 de setembro. Mais recentemente, a jornalista francesa Marie-Monique Robin também tentou desmascarar o “estado atual das coisas” com o livro-reportagem “O mundo segundo a Monsanto”, que expõe as atividades abusivas da fabricante de transgênicos.
Com um tom mais lírico, mas não menos documental, o escritor Eduardo Galeano também participa desse processo de levantar o véu da aparência das coisas. Em seu mais recente livro, “Espelhos - uma história quase universal", ele traz 600 relatos, reais ou alegóricos, costurando os fatos que definiram a humanidade, sempre do ponto de vista dos “perdedores”. Começa com o nascimento do homem, quando ele faz questão de lembrar que surgiu na África. E vai até fatos mais recentes como a invasão do Iraque. Interessante perceber que na região onde nasceu a escrita, os EUA arbitrariamente resolveram reescrever a realidade. Daqui a pouco, nossas crianças irão aprender na escola que a escrita nasceu no Texas.
Fica a minha modesta tentativa de divulgar as outras versões dos nossos processos históricos e um trechinho do livro que apresentei no Clássicos:
“Há mais de meio século, o Uruguai não ganha um Campeonato Mundial de futebol, mas durante a ditadura militar compensou e conquistou outros duvidosos troféus: foi o país que, proporcionalmente, teve o maior número de presos políticos e torturados.
A prisão com o maior número de presos foi chamada de “Liberdade”. Como rendendo homenagem ao seu nome, palavras presas fugiram de suas grades; escorreram por elas os poemas que os presos escreviam em minúsculos papéis de enrolar cigarros...como este.
Às vezes chove e te quero. Às vezes sai Sol e te quero. A prisão é às vezes...sempre te quero.”