quinta-feira, 13 de novembro de 2008

"A liberdade de ver o outro."

Por Albertine

Apresentei outro texto da Piauí no último Clássicos. Se ousou passar na sua cabeça que eu errei ao colocar o pronome feminino na frente do estado nordestino, pare de ler agora, você não é digno deste texto. Bom, voltando ao assunto. O escritor, já defunto, David Foster Wallace, foi paraninfo de uma turma qualquer, de uma universidade qualquer, de uns estados unidos qualquer. Mas não foi um discurso qualquer que David fez durante a formatura. Tanto não foi que “A” Piauí resolveu estampá-lo em suas páginas.

Eu nunca tinha ouvido falar de David. Nunca tinha lido uma única linha sua. E olha que, segundo a revista, ele é “um dos escritores (americanos) mais admirados da sua geração”. Ok, não sou mesmo especialista em assuntos americanos. Na verdade, sou especialista em falar mal deles. Mas tenho que confessar. Ultimamente, tenho sido apresentada a excepcionais cidadãos daquelas bandas. Não é à toa que mestres como Thoreau, Chomsky e Cannon são vistos como aberrações pela maioria dos seus compatriotas.

Não posso me estender muito. Essa é a primeira regra de um texto feito para a rede selvagem pelo mundo (WWW). Mesmo que você tenha muito a dizer, não diga.


David tinha muito a dizer, pena que se foi, cedo, aos 46 anos. Tinha muito a dizer sobre manter-se consciente do que é real e o que é essencial. Sobre o sistema carcerário do consumo inconsciente e sobre a dificuldade de se manter realmente vivo, muito antes de morrer.

Ainda bem que a Piauí adora quebrar as regras. Deixou que David falasse por três longas páginas da web. Depois de lê-las, você fica com a impressão de que acabou de passar os olhos por um grande e pesado livro e, ao mesmo tempo, sente que faltou espaço para todas as discussões por ele levantadas.

Vou deixar que David fale por si só.

“Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.”

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_25/artigo_766/A_liberdade_de_ver_os_outros.aspx

7 comentários:

Unknown disse...

recomendo a leitura sobre questão do Mito - em antropologia.
A adoraçao de mitos produz ordem não só social/ética, mas também mental -
todos tem os proprios mitos, é natural.
Já sobre as psicopatias cotidianas, é uma outra discussão.

Anônimo disse...

Ainda seguindo as dicas da nossa amiga à milanesa, tem um outro texto que faz link com o do David Foster. Segue link. Wallacehttp://sethgodin.typepad.com/seths_blog/2008/11/hungry.html

pratanegra disse...

o último post deste blog é incrivelmente burro -- vou até linkar pruns amigos meus como exemplo.

mas queria falar deste post em particular, queria comentar sobre o DFW.

primeiro, vou esclarecer aqui rapidão: existe ainda em alguns setores intelectuais daqui, especulo até que é sobra de propaganda stalinista no terceiro mundo, uma desvalorização absurda do que os estados unidos têm de melhor. os eua produzem, isso já é um consenso crítico até de boa parte da crítica literária brasileira, a melhor literatura no mundo desde os anos sessenta ou setenta. eles tinham, até pouco tempo atrás, o saul bellow, o john updike, o donald barthelme, o isaac bashevis singer e têm ainda o philip roth, o john barth, o thomas pynchon, a zadie smith, o cormac mccarthy, o don delillo, o john ashberry -- tou citando de cabeça, tem muito mais*, e todos os romancistas que listei são melhores, com toda a certeza, do que aquele que, *mistério*, deve ser o melhor romancista brasileiro vivo.

agora ao DFW. o infinite jest, o romance que alavancou o DFW, sério, já é cânon fácil, bem fácil. daqui uns cinco anos, talvez menos, já vão ser comuns aulas sobre o bicho em universidades nos eua -- ele já seria bastante mencionado em uma aula de realismo histérico, se houvesse, se houver.

você deveria procurar pelo discurso dele em inglês. a piauí, acredito, não traduziu tudo.

*talvez você faça um esforço para não acreditar. eu sugiro que você direcione esse ímpeto aí na leitura desses autores que eu listei.

pratanegra disse...

esqueci de falar do salinger, é palha esquecê-lo. e do paul auster.

obs.: eu listei autores vivos ou que morreram até mais ou menos vinte anos atrás, o caso do barthelme. se colocando a literatura americana de todo o século vinte para pesar as coisas aqui, hm, acho que a balança só se equilibra com os autores da própria grã-bretanha.

Albertine disse...
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pratanegra disse...

você não disse que gosta de falar mal dos americanos? como você pode falar mal se você nem conhece *efetivamente* os americanos?

(o que eu citei foi a literatura. mas existem vários estados unidos, assim como existem vários brasis)

mas, então, você pede para que eu 'vá bater uma' ao que isto vai 'liberar aquela gala presa' (eu ri de verdade disso, não estou sendo irônico aqui) -- do que eu devo entender, er, 'por que você veio aqui perder o seu tempo e comentar neste post com todo este interesse e pá?' mas, diante disso, também penso 'por que alguém teria uma caixa de comentários se prefere ficar escrevendo aí suas próprias burrices sem que, né, enfim'. seria legal se aparecessem só amigos com cumprimentos e tapinhas nas costas, não é?

eu reconheço que não deixei um bocado de coisas claras, porém eu vou acender um sinal em neon daquilo que é flagrantemente imbecil neste mesmo post: dizer que o thoreau é considerado uma aberração pela maioria de seus compatriotas é tão louco, é tão não tentar, é pensar (ainda) do jeitão de como as coisas funcionam prefigurado na cabeça de professores de história e geografia, que ficam tão felizes quando têm o seu discurso mimetizado pelos alunos. no entanto, vou conceder o seguinte: talvez você tenha lido isso em algum lugar e julgou que por causa dessa leitura tinha probidade em dizer o que disse. entretanto, (/negrito) isso não é verdade. todo mundo lê thoreau, o bicho tá na lista de favoritos de meio mundo -- vide 'cânon ocidental', harold bloom, de onde outro meio mundo tira sua lista de leitura.

(a direita e a esquerda lá nos eua lêem thoreau, é uma puta duma unanimidade. a esquerda, se não me engano, frisa, sim, o libertarianismo do thoreau mas é mais comum que eles ressaltem a posição ecologista. a direita valoriza o individualismo e a posição contrária à expansão do governo que rola no thoreau)

o chomsky não é, por exemplo, uma aberração para o ben affleck. uma vez eu vi uma lista dele de leitura e ele marcou algum livro do chomsky, algo sobre política internacional -- obviamente querendo parecer alguma coisa que ele, ben affleck, não é. mas, ao que você junta episódios como o ben affleck curtir chomsky, que são freqüentes -- hollywood de algum jeito está, sim, na esquerda, pelo menos nos eua e fica mais evidente quando se vê o que a galera redneck diz de hollywood --, e com a vitória recente do obama, você conclui que o chomsky, professor do mit, é considerado uma aberração? e, *ahem*, tem o lance de que o chomsky deve ser o maior intelectual público dos últimos vinte anos, esqueci disso -- ele tinha até um site de torrents só dele, acho.

(sobre a terceira aberração não sei nada além de que o bicho era da galera do trotsky e, portanto, abstenho-me de comentá-lo -- um costume que não preside neste blog, certamente)


****************

eu deveria ter colocado em algum lugar, no comentário anterior, 'isso parece algo na tangente mas na verdade estou falando disso tudo aqui *mostra com as mãos*'.

(e disléxico, só para constar, é considerar 'todos os homens do presidente' com uma tentativa 'alternativa' (caralho) de desvelar a história oficial. um chicabom para quem perceber a burrice nisso)

Albertine disse...

Para que o nosso mais assíduo comentarista não fique sem resposta:

1)Os seus protegidos americanos descobriram Thoreau muito tempo depois dos ocidentais do outro lado do Atlântico. E ainda insistem em chamá-lo de místico. O que só comprova que não passaram do guarda-página de seus livros.

2)Só para ilustrar a relação de Chomsky com Obama, fica aqui uma frase dita pelo mesmo, depois das duvidosas nomeações feitas pelo presidente dos EUA: “o novo presidente não passa de um típico centrista do Partido Democrata.” Acho que as coisas não andam tão amistosas como você insinuou. Chomsky é constantemente apedrejado pelos americanos por suas duras e lúcidas críticas a política externa dos EUA.

Agora o que cansa mesmo a minha modesta beleza é esse discurso intelectualóide/ elitista/pseudo-academicista de que só podemos falar sobre aquilo que “realmente” conhecemos. O que não deixa de ser uma forma dissimulada de repressão a liberdade de expressão. Acho que tem mais alguém por aqui manchado pelas “sobras de propaganda stalinista no terceiro mundo”.