Aos 28 anos, desiludido no amor e na vida profissional e gravemente doente, o escritor David vive sozinho num casarão em ruínas. É quando surge em sua vida Andreas Corelli, um estrangeiro que se diz editor de livros. Sua origem exata é um mistério, mas sua fala é suave e sedutora. Ele promete a David muito dinheiro e sua simples aparição parece devolver a saúde ao escritor. Contudo, o que ele pede em troca não é pouco. E o preço real dessa encomenda é o que David precisará descobrir. Em O Jogo do Anjo, o catalão Carlos Ruiz Zafón explora novamente a Barcelona do início do século XX.
Trecho do livro
PRIMEIRO ATO
A Cidade dos Malditos
Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente o doce veneno da vaidade no sangue e começa a acreditar que, se conseguir disfarçar sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de garantir um teto sobre sua cabeça, um prato quente no final do dia e aquilo que mais deseja: seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente vai viver mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento porque, a partir daí, ele está perdido e sua alma já tem um preço.
Minha primeira vez chegou num dia distante de dezembro de 1917. Tinha na época 17 anos e trabalhava em La Voz de la Industria, um jornal decadente que definhava num edifício cavernoso que, em tempos passados, tinha abrigado uma fábrica de ácido sulfúrico e cujas paredes ainda transpiravam aquele vapor corrosivo que consumia o mobiliário, a roupa, o ânimo e até a sola dos sapatos. A sede do jornal ficava atrás do bosque de anjos e cruzes do cemitério de Pueblo Nuevo e, de longe, a silhueta do edifício se confundia com a dos mausoléus, recortando-se contra um horizonte espetado por centenas de chaminés e fábricas que teciam um crepúsculo vermelho e negro estendido perpetuamente sobre Barcelona.
Na noite que mudaria o rumo de minha vida, o subdiretor do jornal, dom Basilio Moragas, achou por bem convocar-me, um pouco antes do fechamento da edição, ao cubículo escuro e encravado no fundo da redação, que fazia as vezes de escritório e de área para fumantes de charutos havana. Dom Basilio era um homem de aspecto feroz e bigode farto que não estava para brincadeiras e adotava a teoria de que tanto o uso liberal de advérbios quanto o excesso de adjetivos eram coisa de pervertidos e de gente com deficiências vitamínicas. Quando descobria um redator inclinado à prosa mais floreada, tratava de transferi- lo para a redação de obituários por três semanas. Se, depois do castigo, o indivíduo reincidisse, dom Basilio o mandava para a seção de prendas do lar para todo o sempre. Todos tínhamos pavor dele, e ele sabia disso.
- Mandou me chamar, dom Basilio? - arrisquei timidamente.
O subdiretor me olhou de canto de olho. Entrei no escritório, que cheirava a suor e tabaco, nessa ordem. Dom Basilio ignorou minha presença e continuou revisando um dos artigos que estavam na escrivaninha, lápis vermelho em punho. Durante alguns minutos, o subdiretor metralhou o texto, corrigindo, quando não amputando, e resmungando como se eu não estivesse ali. Sem saber o que fazer, vi que havia uma cadeira encostada na parede e fiz menção de sentar.
- Quem disse que podia se sentar? - murmurou dom Basilio, sem levantar os olhos do texto.
Levantei apressadamente e contive a respiração. O subdiretor suspirou, deixou cair o lápis vermelho e reclinou-se em sua poltrona para examinar-me como se eu fosse um traste imprestável.
- Me disseram que você escreve, Martín.
Engoli em seco e quando abri a boca, só o que saiu foi um ridículo fio de voz.
- Bem, um pouco, quer dizer, não sei… ou seja, sim, escrevo…
- Espero que escreva melhor do que fala. Mas escreve o quê, se não for demais perguntar?
- Histórias policiais. Quero dizer…
- Já peguei a idéia.
O olhar com que dom Basílio me brindou é indescritível. Se eu tivesse dito que me dedicava a fazer figurinhas de presépio com esterco fresco teria obtido o triplo de entusiasmo. Suspirou de novo e deu de ombros.
- Vidal diz que o senhor não é de todo mau. Que se destaca do resto. Claro que, com a competência que se vê por essas bandas, também não é preciso ser grande coisa. Mas se Vidal falou.
Pedro Vidal era a estrela literária de La Voz de la Industria. Escrevia uma crônica semanal na editoria de polícia, que constituía a única coisa que merecia ser lida em todo o jornal, e era autor de uma dezena de livros de suspense sobre gângsteres do bairro do Raval vivendo em promiscuidade com damas da alta sociedade, os quais lhe garantiram uma modesta notoriedade. Metido invariavelmente em impecáveis ternos de seda e reluzentes mocassins italianos, Vidal tinha os traços e os gestos de um galã de sessão da tarde: cabelo louro sempre bem penteado, bigode espetado e o sorriso fácil e generoso de quem se sente bem na própria pele e no mundo. Provinha de uma dinastia de imigrantes que tinha feito fortuna nas Américas com negócios de açúcar e que, na volta à Espanha, tinha cravado os dentes numa suculenta fatia do plano de eletrificação da cidade. Seu pai, o patriarca do clã, era um dos acionistas majoritários do jornal, e dom Pedro usava a redação como pátio de recreio para matar o tédio de nunca, nem um único dia de sua vida, ter trabalhado por necessidade. Pouco importava que o diário perdesse tanto dinheiro quanto os automóveis que começavam a circular pelas ruas de Barcelona perdiam óleo: com abundância de títulos de nobreza, a dinastia dos Vidal dedicava-se agora a colecionar bancos e mansões do tamanho de pequenos principados no Ensanche.
Pedro Vidal foi a primeira pessoa a quem mostrei os esboços que escrevia quando era apenas um menino e trabalhava entregando café e cigarros na redação. Sempre teve tempo para mim, para ler meus escritos e dar bons conselhos. Com o tempo, chamou-me para ser seu assistente e permitia que datilografasse seus textos. Certo dia anunciou que, se queria mesmo apostar meu destino na roleta-russa da literatura, estava disposto a me ajudar e a guiar meus primeiros passos. Fiel à palavra dada, tinha me jogado nas garras de dom Basilio, o cão de guarda do jornal.
- Vidal é um sentimental que ainda acredita em lendas profundamente antiespanholas, como a meritocracia, e em dar oportunidade a quem merece e não ao apadrinhado da vez. Rico como é, pode dar uma de lírico pelo mundo afora. Se tivesse um centésimo da grana que sobra para ele, teria me dedicado a escrever sonetos, e os passarinhos viriam comer na minha mão, fascinados por minha bondade e meu encanto.
- O sr. Vidal é um grande homem - protestei eu.
- É mais do que isso. É um santo porque, apesar dessa sua pinta de morto de fome, há semanas que ele me aporrinha com exemplos de como é talentoso e trabalhador o caçula da redação. Ele sabe que, no fundo, sou um sentimental e, além do mais, garantiu que, se eu lhe der uma oportunidade, ele me dará uma caixa de havanas. E se Vidal pede, para mim é como se Moisés descesse do monte Sinai com os Dez Mandamentos numa mão e a verdade revelada na outra. De modo que, concluindo, como é Natal e para que seu amigo feche a porra da matraca de uma vez por todas, vou convidá-lo para estrear como os heróis: contra a corrente dos ventos e das marés.
- Muitíssimo obrigado, dom Basilio. Garanto que não vai se arrepender de…
- Menos, meu caro. Vejamos o que pensa do uso generoso e indiscriminado de advérbios e adjetivos…
- Que é uma vergonha e deveria ser crime previsto no código penal - respondi com a convicção de um crente militante.
Dom Basilio concordou com entusiasmo.
- Muito bem, Martín. Tem prioridades claras. Os que sobrevivem nessa profissão são os que têm prioridades e não os que têm princípios. Eis o plano. Pode sentar e trate de entender, pois não vou repetir duas vezes.
O plano era o seguinte. Por motivos que dom Basilio não considerou oportuno esclarecer, a última página da edição dominical, tradicionalmente reservada para um relato literário ou de viagem, tinha caído na última hora