quinta-feira, 13 de novembro de 2008

"A liberdade de ver o outro."

Por Albertine

Apresentei outro texto da Piauí no último Clássicos. Se ousou passar na sua cabeça que eu errei ao colocar o pronome feminino na frente do estado nordestino, pare de ler agora, você não é digno deste texto. Bom, voltando ao assunto. O escritor, já defunto, David Foster Wallace, foi paraninfo de uma turma qualquer, de uma universidade qualquer, de uns estados unidos qualquer. Mas não foi um discurso qualquer que David fez durante a formatura. Tanto não foi que “A” Piauí resolveu estampá-lo em suas páginas.

Eu nunca tinha ouvido falar de David. Nunca tinha lido uma única linha sua. E olha que, segundo a revista, ele é “um dos escritores (americanos) mais admirados da sua geração”. Ok, não sou mesmo especialista em assuntos americanos. Na verdade, sou especialista em falar mal deles. Mas tenho que confessar. Ultimamente, tenho sido apresentada a excepcionais cidadãos daquelas bandas. Não é à toa que mestres como Thoreau, Chomsky e Cannon são vistos como aberrações pela maioria dos seus compatriotas.

Não posso me estender muito. Essa é a primeira regra de um texto feito para a rede selvagem pelo mundo (WWW). Mesmo que você tenha muito a dizer, não diga.


David tinha muito a dizer, pena que se foi, cedo, aos 46 anos. Tinha muito a dizer sobre manter-se consciente do que é real e o que é essencial. Sobre o sistema carcerário do consumo inconsciente e sobre a dificuldade de se manter realmente vivo, muito antes de morrer.

Ainda bem que a Piauí adora quebrar as regras. Deixou que David falasse por três longas páginas da web. Depois de lê-las, você fica com a impressão de que acabou de passar os olhos por um grande e pesado livro e, ao mesmo tempo, sente que faltou espaço para todas as discussões por ele levantadas.

Vou deixar que David fale por si só.

“Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como “não venerar”. Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar – seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos – é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio – e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.”

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_25/artigo_766/A_liberdade_de_ver_os_outros.aspx

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O jogo do anjo - Carlos Ruiz Zafon

Aos 28 anos, desiludido no amor e na vida profissional e gravemente doente, o escritor David vive sozinho num casarão em ruínas. É quando surge em sua vida Andreas Corelli, um estrangeiro que se diz editor de livros. Sua origem exata é um mistério, mas sua fala é suave e sedutora. Ele promete a David muito dinheiro e sua simples aparição parece devolver a saúde ao escritor. Contudo, o que ele pede em troca não é pouco. E o preço real dessa encomenda é o que David precisará descobrir. Em O Jogo do Anjo, o catalão Carlos Ruiz Zafón explora novamente a Barcelona do início do século XX.

Trecho do livro

PRIMEIRO ATO
A Cidade dos Malditos

Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente o doce veneno da vaidade no sangue e começa a acreditar que, se conseguir disfarçar sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de garantir um teto sobre sua cabeça, um prato quente no final do dia e aquilo que mais deseja: seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente vai viver mais do que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento porque, a partir daí, ele está perdido e sua alma já tem um preço.

Minha primeira vez chegou num dia distante de dezembro de 1917. Tinha na época 17 anos e trabalhava em La Voz de la Industria, um jornal decadente que definhava num edifício cavernoso que, em tempos passados, tinha abrigado uma fábrica de ácido sulfúrico e cujas paredes ainda transpiravam aquele vapor corrosivo que consumia o mobiliário, a roupa, o ânimo e até a sola dos sapatos. A sede do jornal ficava atrás do bosque de anjos e cruzes do cemitério de Pueblo Nuevo e, de longe, a silhueta do edifício se confundia com a dos mausoléus, recortando-se contra um horizonte espetado por centenas de chaminés e fábricas que teciam um crepúsculo vermelho e negro estendido perpetuamente sobre Barcelona.

Na noite que mudaria o rumo de minha vida, o subdiretor do jornal, dom Basilio Moragas, achou por bem convocar-me, um pouco antes do fechamento da edição, ao cubículo escuro e encravado no fundo da redação, que fazia as vezes de escritório e de área para fumantes de charutos havana. Dom Basilio era um homem de aspecto feroz e bigode farto que não estava para brincadeiras e adotava a teoria de que tanto o uso liberal de advérbios quanto o excesso de adjetivos eram coisa de pervertidos e de gente com deficiências vitamínicas. Quando descobria um redator inclinado à prosa mais floreada, tratava de transferi- lo para a redação de obituários por três semanas. Se, depois do castigo, o indivíduo reincidisse, dom Basilio o mandava para a seção de prendas do lar para todo o sempre. Todos tínhamos pavor dele, e ele sabia disso.

- Mandou me chamar, dom Basilio? - arrisquei timidamente.

O subdiretor me olhou de canto de olho. Entrei no escritório, que cheirava a suor e tabaco, nessa ordem. Dom Basilio ignorou minha presença e continuou revisando um dos artigos que estavam na escrivaninha, lápis vermelho em punho. Durante alguns minutos, o subdiretor metralhou o texto, corrigindo, quando não amputando, e resmungando como se eu não estivesse ali. Sem saber o que fazer, vi que havia uma cadeira encostada na parede e fiz menção de sentar.

- Quem disse que podia se sentar? - murmurou dom Basilio, sem levantar os olhos do texto.

Levantei apressadamente e contive a respiração. O subdiretor suspirou, deixou cair o lápis vermelho e reclinou-se em sua poltrona para examinar-me como se eu fosse um traste imprestável.

- Me disseram que você escreve, Martín.

Engoli em seco e quando abri a boca, só o que saiu foi um ridículo fio de voz.

- Bem, um pouco, quer dizer, não sei… ou seja, sim, escrevo…

- Espero que escreva melhor do que fala. Mas escreve o quê, se não for demais perguntar?

- Histórias policiais. Quero dizer…

- Já peguei a idéia.

O olhar com que dom Basílio me brindou é indescritível. Se eu tivesse dito que me dedicava a fazer figurinhas de presépio com esterco fresco teria obtido o triplo de entusiasmo. Suspirou de novo e deu de ombros.

- Vidal diz que o senhor não é de todo mau. Que se destaca do resto. Claro que, com a competência que se vê por essas bandas, também não é preciso ser grande coisa. Mas se Vidal falou.

Pedro Vidal era a estrela literária de La Voz de la Industria. Escrevia uma crônica semanal na editoria de polícia, que constituía a única coisa que merecia ser lida em todo o jornal, e era autor de uma dezena de livros de suspense sobre gângsteres do bairro do Raval vivendo em promiscuidade com damas da alta sociedade, os quais lhe garantiram uma modesta notoriedade. Metido invariavelmente em impecáveis ternos de seda e reluzentes mocassins italianos, Vidal tinha os traços e os gestos de um galã de sessão da tarde: cabelo louro sempre bem penteado, bigode espetado e o sorriso fácil e generoso de quem se sente bem na própria pele e no mundo. Provinha de uma dinastia de imigrantes que tinha feito fortuna nas Américas com negócios de açúcar e que, na volta à Espanha, tinha cravado os dentes numa suculenta fatia do plano de eletrificação da cidade. Seu pai, o patriarca do clã, era um dos acionistas majoritários do jornal, e dom Pedro usava a redação como pátio de recreio para matar o tédio de nunca, nem um único dia de sua vida, ter trabalhado por necessidade. Pouco importava que o diário perdesse tanto dinheiro quanto os automóveis que começavam a circular pelas ruas de Barcelona perdiam óleo: com abundância de títulos de nobreza, a dinastia dos Vidal dedicava-se agora a colecionar bancos e mansões do tamanho de pequenos principados no Ensanche.

Pedro Vidal foi a primeira pessoa a quem mostrei os esboços que escrevia quando era apenas um menino e trabalhava entregando café e cigarros na redação. Sempre teve tempo para mim, para ler meus escritos e dar bons conselhos. Com o tempo, chamou-me para ser seu assistente e permitia que datilografasse seus textos. Certo dia anunciou que, se queria mesmo apostar meu destino na roleta-russa da literatura, estava disposto a me ajudar e a guiar meus primeiros passos. Fiel à palavra dada, tinha me jogado nas garras de dom Basilio, o cão de guarda do jornal.

- Vidal é um sentimental que ainda acredita em lendas profundamente antiespanholas, como a meritocracia, e em dar oportunidade a quem merece e não ao apadrinhado da vez. Rico como é, pode dar uma de lírico pelo mundo afora. Se tivesse um centésimo da grana que sobra para ele, teria me dedicado a escrever sonetos, e os passarinhos viriam comer na minha mão, fascinados por minha bondade e meu encanto.

- O sr. Vidal é um grande homem - protestei eu.

- É mais do que isso. É um santo porque, apesar dessa sua pinta de morto de fome, há semanas que ele me aporrinha com exemplos de como é talentoso e trabalhador o caçula da redação. Ele sabe que, no fundo, sou um sentimental e, além do mais, garantiu que, se eu lhe der uma oportunidade, ele me dará uma caixa de havanas. E se Vidal pede, para mim é como se Moisés descesse do monte Sinai com os Dez Mandamentos numa mão e a verdade revelada na outra. De modo que, concluindo, como é Natal e para que seu amigo feche a porra da matraca de uma vez por todas, vou convidá-lo para estrear como os heróis: contra a corrente dos ventos e das marés.

- Muitíssimo obrigado, dom Basilio. Garanto que não vai se arrepender de…

- Menos, meu caro. Vejamos o que pensa do uso generoso e indiscriminado de advérbios e adjetivos…

- Que é uma vergonha e deveria ser crime previsto no código penal - respondi com a convicção de um crente militante.

Dom Basilio concordou com entusiasmo.

- Muito bem, Martín. Tem prioridades claras. Os que sobrevivem nessa profissão são os que têm prioridades e não os que têm princípios. Eis o plano. Pode sentar e trate de entender, pois não vou repetir duas vezes.

O plano era o seguinte. Por motivos que dom Basilio não considerou oportuno esclarecer, a última página da edição dominical, tradicionalmente reservada para um relato literário ou de viagem, tinha caído na última hora

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Metrô: ícone do sepultamento da humanidade.

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Por Albertine

Carreguei para o Clássicos impressões, nada imparciais, de um cubano sobre Nova York e São Paulo. Adivinhem para que lado ele puxou a sardinha? (quem construiu essa expressão deve mesmo achar sardinha um desbunde gastronômico).

O compatriota de Fidel começa comparando o metrô das duas capitais. Nada melhor do que inaugurar a analogia com o ícone do sepultamento da humanidade. Interessante é perceber como os contrastes do Brasil estão refletidos, até mesmo, no sub de Sampa. Obras de arte e banheiros caminham lado a lado. Já em New York, não tão nova assim, o metrô é a representação do corroído “american way of life”. Paredes cheias de mofo e nada de banheiros. Vai dizer que isso não é a cara dos americanos. Mas incompreensível do que essa pura falta de civilidade, só mesmo o sistema eleitoral dos EUA.

Vou deixar o resto para vocês desenterrarem. Mas o texto vale mesmo pela sensibilidade do autor, um olhar bem particular de um homem experiente que tem a capacidade de parir esse filho de frase: Aos 77 anos de idade, a primeira impressão é a última.


http://www.revistapiaui.com.br/edicao_25/artigo_774/NY_e_SP.aspx

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Literatura mineira-brasiliense

Por Érica Abe

Para o Clássicos da semana retrasada (sim, esse post é bem atrasadinho), decidi levar um escritor - que também é jornalista - daqui de Brasília mesmo. Apesar de ter nascido em MG, José Rezende Jr. lançou seu primeiro livro, A mulher gorila e outros demônios, na capital federal. E é onde também está escrevendo também sua segunda aventura pelo mundo ficcional.


Para o nosso encontro, optei por levar o primeiro conto da Mulher Gorila. Chama-se Pleibéqui. É denso, curto, conciso, inesperado, surpreendente....enfim....bom pra caramba. Como o Rezende optou por colocar Mulher Gorila na net, me senti ainda mais à vontade para colocar o ínício do conto aqui. O restante, vocês conferem no site dele.

"Só fui reparar que era a Creuza quando ela já tava lá, no meio do palco, as luzes todas em cima, tinha até começado a cantar. Como eu ia adivinhar, se o locutor anunciou um nome que não era Creuza? Burro, na hora nem me passou pela cabeça, todo artista muda de nome pra ficar mais chique, se bem que, segundo a revista, já tem mãe batizando filho com nome artístico pra não precisar trocar depois de grande. E só quando a Creuza já tava lá no meio do palco e do refrão da música foi que me lembrei da promessa que ela fez uns anos atrás, nem era promessa, era mais um sonho, “eu vou ser cantora”, e eu ri, e não podia ter rido, ela me disse depois, quando eu telefonei pro salão de beleza pela décima vez e ela, cansada de mandar a Dirce dizer que tinha morrido e que queria que eu morresse também, pegou o telefone e gritou “você não podia ter rido de mim, podia ter falado du-vi-deo-dó ou sei lá acho que vai ser difícil porque o que mais tem neste país de merda é cantora de merda, podia falar qualquer coisa, menos rir na minha cara.” Eu não devia mesmo ter rido, porque ela não riu naquele dia quando a gente namorava e eu disse que ia ser jogador de futebol, ela ficou séria, “se é o que você quer, dou a maior força”, mas eu não fui jogador de futebol, não fui porra nenhuma, e ela agora era cantora, tinha palco, luz azul e tudo."

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Home sweet home

Por Érica Abe

Voltar a escrever no blog do Clássicos (e também no meu) traz uma sensação de que a vida voltou ao normal. Em parte, sim.

Suspendemos nossos encontros literários por umas muitas semanas, primeiro em função das férias de inverno do Fe e depois das minhas viagens laborísticas.  Há 15 dias, voltamos à rotina, deliciosa por sinal!

Dae então o sentido deste post. A minha contribuição da quinzena passada foi esse vídeo aqui, que muita gente até já viu, mas que tem um dos melhores diálogos de curta que eu já vi.


Enjoy it!


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sobre Marrakech

ou da super reproduçao das laranjas...
02/06/08 ou 2008 a.c.

Por Érica Moreti by milanesa

Imaginem uma praça onde existam dezenas de barraquinhas de teto branco e esfumaçantes,
trânsito sem direçao definida misturando bicicletas, mobiletes, ônibus, charretes e pessoas, encantadores de cobras, figuras com roupas semelhantes às de Maracatu vendendo água armazenadas em sacos de pele de camelo e laranjas: Praça Djama el Fna.

São 13:30, sexta feira, Marrakech, Marrocos. Dia sagrado muçulmano. Uma torre de mesquita - à sua direita - canta. Mesquita de Kotoubia.

Aos poucos se começa a ouvir outros cantos vindos de direções diferentes. Existem 3 grandes mequistas e 5 são os horários de oração. As torres se comunicam entre si para lembrar (ou nao deixar esquecer) os fiéis das rezas diárias - tudo muito sutil, ahn? -Nesse momento as praças e ruas perdem seu movimento habitual.

Os fiéis vão às Medinas orar. E os judeus têm um pouco mais de paz nessa hora. Mas ainda se pode tomar um suco de laranja... Das dezenas de barracas, metade é de suco de laranja. Os melhores de minha vida. E são infinitos. Inshala.
Os carrinhos com a foto do rei estão por toda a parte (informaçao útli numero 1: as laranjas são originárias daquela região).

- comentario pessoal: Provavelmente os grãos de areia do deserto são sementes de laranja. Ou elas se reproduzem como coelhos - Arturo Baldini, nosso protagonista de Pergunte ao pó, comeria laranjas em Marrakech? - Cruzando as barracas se chega a ruas estreitas do mercado: os souks, mercados de venda de tudo o que se pode imaginar. (Feira do Guará no chinelo.. Dizem que existe uma semlhança incrível com o mercado de Guajaca no México). O mais interessante são as barracas de especiarias e as herboristerias. Ambas exalam o cheiro da cidade, da comida e de seus habitantes; tudo cheira a uma mistura de 35 especiarias.

- desde então sinto um marroquino a quilômetros de distância. E lavei muito bem minhas roupas
-as herboristerias são regidas pelo famoso pensamento mágico que nos faz sempre querer acreditar em milagres.
- o mesmo vale para a comida nas culturas em geral, discurso à parte - herança deles e suas mil e uma noites. O que não faz da imagética menos bela. São cores e detalhes maravilhosos de especiarias e tinturarias de tecidos a céu aberto. A principal caracteristica dos marroquinos - assim como de todos os islâmicos da época da primeria globalização - as navegaçoes -, é a de serem grandes negociantes. Grandes, não bons. Depois que se entende o sistema vc descobre que são negociantes ingênuos. Isso explica muita coisa sobre sua história. Me refiro aos muçulmanos em geral. Os turcos perderam a Grécia, os muçulmanos perderam a terra em Israel e assim por diante. Tentam te enganar, mas são ingênuos, esqueceram de proteger o método. Negociam pelo prazer da dialética e fim. Cada objeto custa 1/4 do seu preço, e todo mundo sabe. Ganham apenas pela desistência de seus oponentes, que cansam da dialética e continuam fingindo negociação - assim os deixamos felizes.

Marraquech fala todas as línguas possíveis. Além do Beriberi (lingus beduína que originou o árabe marroquino, o francês (ok, esse é conhecido...), espanhol (ensinado no ensino básico e provindo da ocupação moura principalmente na Andaluzia), inglês (porque todo mundo fala), Italiano (porque eles estão em todas as partes) e arriscam o português (o futebol faz maravilhas). Isso os possibilita de pedir dinheiro em qualquer língua. E non-stop. Marroquinos são pedintes em potencial. (frase obrigatória: la shukram - não, obrigado.)
- no Brasil nivelariam a população. De tanto que vc daria, teria que começar a pedir também. Qualquer pessoa na rua pede dinheiro: "Messiê, messiê, dirham (a moeda marroquina)".
Repita o refrão 150 vezes e multiplique pelos 1 036 500 habitantes. Isso dá a idéia da agradabilidade da aproximação.

Se tirar foto, pedem. Se olhar, pedem. Se ficar parado sem se mover, tampando os olhos, pedem.
O centro da cidade é murado, separado pelos muros da Medina. Ali dentro tudo acontece.
O fato curioso é que ali o tempo pára. Se alguém se lembra de qualquer história bíblica, pode vê-la ali em technicolor. Provavelmente as pessoas sejam as mesmas do tempo de antes de Cristo.

Só existem mercados de rua onde vc pode encontrar pães à venda empilhados no chão, pode escolher a galinha de sua preferência (que será acolhida por Alá diante de seus olhos), seus objetos feitos à mão (ou com o pé - um senhor entalhava a madeira com o pé) ou comer uma saborosa linguiça de pâncreas em um lugar onde a tampa do lixo é uma tampa de toilette ou comprar seu cobertor de pele de camelo. Carpinteiros, mercados da Medina (a serem ainda destruídos por Jesus para mostrar sua fé), túnicas e burcas, casas e estruturas feitas em areia e palha, cosméticos em seu estado puro (batom em Beriberi: pigmento marrom espalhado sobre uma superfície de cerâmica acionada pelo poder do cuspe. Passar na boca com o dedo.) Incrível. museu a céu aberto.
- Aconselho a Bíblia como guia de viagens -
A paisagem rumo ao deserto muda.
Muita terra árida com rios de árvores (definiçao de meu flatmate, Gui).
Paisagens verdes localizadas em contraste com as casas camufladas. Todas as construções no Marrocos são rosadas cor-de-terra. Tudo é rosa - a semente histórica da Barbie. À primeira vista não se vêem, à segunda estão ali. As cidades maiores são a modo tradicional: prédios, lojas, etc..
Destaque para os Kasbahs, contruções gigantescas, tipo fortalezas que protegem a cidade, que foram location de clássicos como Ben Hur, Babel, A Múmia - sim, a múmia é um classico - e outros.. Lindos! Mas impedidos de visitação pela concentração de pessoas que pedem dinheiro.
(depois eu entro neles vendo "A Múmia").

O deserto é algo de sensacional. E andar de camelo dói. 5 minutos são suficientes para um treinamento de abertura completa. Certamente os humanos de sexo masculino têm mais dificuldades. A experiência de comer com os beduínos, dormir olhando as estrelas cadentes e entrar na tenda correndo por causa da tempestade de areia é indescritível. Alá salve as tempestades de areia. De repente a noite fica branca e se sente o vento mais sólido.
- visão, roupas e higiene pessoal obviamente prejudicadas - E se acorda embaixo de uma duna, mesmo dentro da tenda.

Pôr do sol laranja e azul, figuras com turbantes coloridos, meia lua arábica, gosto e cheiro de chá de menta, tenda de tapetes, areia quentinha, barulho de ventania, milhões de grãos voadores e pêlo de camelo.

Sensações do deserto de Zahora.
De volta à nossa Marraquexe, mais cuscuz e Tajine (carne assada em potes de ceramica de forma particular, sempre à 35 especiarias), chá de menta e batuques de tambor misturado com flautas dos encantadores.

O trânsito segue muito livre - o direito de ir e vir - com personalização de direções, mesmo que isso inclua você no caminho.
E muitas luz das barraquinhas e lâmpadas maravilhosas no tempo de 2008 a.c.
Tudo com muita cor e especiarias. Desistam do Texas, o Marrocos sim é que uma terra sem lei.
Vos espero em Casablanca para um café no Rik's.
beijos,
- correspondente internacional -

terça-feira, 17 de junho de 2008

"Maioria de um só"

Semana3

Por Albertine

Depois que vi o filme “Na natureza selvagem”, fiquei catatônica por uns quatro dias. Eu não habitava mais o meu corpo. Só era capaz de executar as funções mais vitais. Estava parecendo com Darrell Standing quando submetido à camisa de força em o “Andarilho das estrelas”, livro de Jack London.

Sim, eu sou uma pessoa impressionável, a minha relação com o mundo, em um primeiro contato, ocorre com base no “ou eu amo, ou eu odeio.” Sinto, depois penso a respeito. E o meu encontro com a história de Christopher McCandless, principal personagem de “Into the Wild”, título original, não poderia ter sido diferente.

Não vou contar o filme aqui, mas o recomendo a todos aqueles que se sentem desajustados neste planeta, que acreditam que está tudo fora de ordem, que não entendem como as coisas (“things, things, things”) podem ser mais importantes do que as pessoas. Quem sabe, vocês não se sintam menos solitários ao assistir a história de alguém que abriu mão do “american way of life” e botou o pé na estrada para descobrir o seu jeito de fazer a vida.

Além de Chris, você poderá descobrir Thoreau e rever velhos conhecidos como Tolstoi e Jack London. Reunidos em uma espantosa sincronicidade, mesmo vivendo em épocas distintas, alertando para assuntos tão atuais, como a necessidade urgente do homem se reintegrar à natureza. Todos acompanhados pela trilha sonora de Eddie Wedder. O roteiro partiu de um livro de Jon Krakauer, jornalista americano que se sentiu impelido a desmistificar a idéia de que o jovem, que dá vida ao longa, era apenas mais um descompromissado aventureiro.

E foi exatamente este livro que eu levei para o Clássicos. Na verdade, é o quarto encontro consecutivo para o qual trago algo relacionado ao filme. Um pouco de compulsão da minha parte? Talvez. Acho que tenho uma intensa necessidade em compartilhar. Deve ser a mesma motivação que leva um crente a ficar pregando na parada de ônibus ou no meio do carnaval de rua.

Já ouvi opiniões muito divergentes sobre a trajetória de Christopher McCandless. Alguns o acham ingênuo e passional, fazendo quorum à crítica de O Globo. Mas o que se esperar de um veículo cartesiano e neoliberal que adora estampar a última tecnologia em cirurgia plástica para acabar com as rugas que você levou anos para conquistar? ... Outros, como eu, se surpreenderam com a coragem e se identificaram com o seu despreendimento.

Maldito do imbecil que disse que a democracia é a forma mais justa de governo. Qualquer homem mais correto que seus vizinhos já constituiu a maioria de um só, já dizia Thoreau.


Em nome da democracia, deixo-os com um trecho do livro que deu origem ao “Na natureza selvagem”. Dêem vocês o veredicto.

Bom Apetit!

“Em relação a quando visitarei a civilização, não será breve, acho. Não me cansei da natureza; ao contrário, deleito-me cada vez mais com sua beleza e com a vida errante que levo. Prefiro a sela ao bonde, e o céu salpicado de estrelas a um teto, a trilha obscura e difícil, levando ao desconhecido, a qualquer estrada pavimentada, e a paz profunda do campo ao descontentamento gerado pelas cidades. Você me censura por ficar aqui, onde sinto que é o meu lugar e que sou uno com o mundo a minha volta?
É verdade que sinto falta de companhia inteligente, mas há tão poucos com quem compartilhar as coisas que significam tanto para mim que aprendi a me conter. É suficiente que eu esteja cercado de beleza...
Mesmo com base em sua descrição insuficiente, sei que não conseguiria suportar a rotina e o tédio da vida que você é forçado a levar. Não acho que poderei algum dia fixar residência. Já conheci demais as profundezas da vida e preferiria qualquer coisa a um anticlímax.”

*Serviço
KRAKAUER, Jon. Na natureza selvagem; tradução Pedro Maia Soares. – São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

domingo, 8 de junho de 2008

As memórias do livro

Semana 3


Por Fernando Silva


Sinopse: Da Espanha de 1480 até a enfraquecida Sarajevo de 1996, um livro sagrado de valor incalculável é caçado por fanáticos políticos e religiosos. Seu destino está nas mãos de uma talentosa conservadora de livros a charmosa protagonista Hanna, e sua recuperação resulta em um mistério histórico arrebatador.

Quando Hanna é chamada a Sarajevo para examinar o Hagadá, um código judaico do século XV que havia desaparecido durante a guerra da Bósnia, ela não pode acreditar que um documento tão maravilhoso estava preservado depois de tantas guerras e tanto preconceito. A partir de pistas encontradas no próprio manuscrito uma asa de inseto, manchas de vinho e um pêlo branco Hanna desvenda uma série de enigmas fascinantes e reconstrói as memórias do livro. E o resultado é um verdadeiro épico, uma corrida contra o tempo para revelar o passado e dar espaço à crônica da história do livro, enquanto Hanna procura a cura para uma criança vítima da intolerância da guerra, um amor impossível, sua própria identidade e proteção: do Hagadá e de sua própria vida.


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Há muito tempo me interessa tudo o que se escreve sobre os Balcãs e, mais especificamente, sobre a Bósnia. Por isso, tenho que admitir que esperava muito desse livro. Contudo, não me agradou, de qualquer forma. A narrativa é fraca e, por vezes, extremamente chata...

Bem, estou aqui pensando que, definitivamente, eu não sei escrever resenhas. Tampouco sei descrever filmes que vejo ou livros que leio. Eu sempre me concentro em detalhes insignificantes que, para muitos , seriam extremamente desnecessários mas, para mim, fazem todo sentido, Por isso sempre percebo que as pessoas me olham de um jeito estranho quando eu tento descrever o que vejo ou leio.

Enfim, eu só gostaria de lembrar a todos que amanhã a Romênia fará a sua grande estréia na Eurocopa contra a ridícula seleção da França. Me falta inspiração para qualquer outra intervenção. Espero me sair melhor no próximo post!

OBS: A sombra do vento é um dos melhores livros que já li. (2)

Serviço
BROOKS, Geraldine. As memórias do livro. São Paulo: Ediouro, 2008. 384 p.

domingo, 1 de junho de 2008

(Des) Apego

Semana 3 com: As memórias do livro e Maioria de um só.

Nessa semana, Fernando, além de ter escolhido com antecedência o texto do Clássicos, conseguiu mais uma façanha: trouxe uma não-dica de leitura. Quer dizer, falou de um livro com o qual ele se decepcionou muito e recomenda que não gastemos nosso suado dinheirinho com essa “perda de tempo”.

Fe - Me decepcionei muito com esse livro. Queria trazer ele pra cá e também fazer uma resenha.
Dani - Faça a resenha, vá no Sebinho e venda o livro.
Albertine - Exatamente.
Fe - Não, não, isso eu não posso.
Dani - Mesmo quando você não gosta do livro, você não consegue se desfazer dele?
Albertine - Fernando, você tem que se desapegar. Depois do Into the Wild você não aprendeu nada?
Fe - Não, não, não, não...com livro não....o máximo que eu posso fazer é doar para a biblioteca.
Tuti – Isso. Aproveita e leva aquele outro livro que eu ganhei e detestei, “Livro dos livros perdidos”....(risos)


* * *
Tuti – Mas, Fe, por que trazer uma coisa que você não gostou pra cá?
Fe – Por que a idéia não é trazer uma coisa com a qual a gente teve contato recentemente?
Albertine – É, ou que você tenha lembrado de já ter lido....
Tuti – Só fiquei curiosa com a sua escolha.
Albertine – Mas é útil dar uma dica do tipo “ó, não leiam tal coisa...”
Tuti – Quem realmente quiser ler, pode pegar o do Fe emprestado, começar a ler, desistir e devolver... (risos)
Albertine – Eu confio na opinião dos meus amigos.
Fe – Mas eu não sei. Eu quero emprestar esse livro pra alguém, sem falar o que eu achei, pra saber a opinião da pessoa.
Tuti – Ei, você, estanho, lê esse livro aí e depois me diz o que achou....


* * *
Fe – Ei Ju, não faço uma orelha em um livro nunca, assim como você fez agora.
Albertine – Eu faço. Eu dobro, eu risco, eu cheiro....
Fé – Mas por que fazer isso?
Albertine – Você já viu aquele filme que o cara viaja pelos vinhedos da Califórnia? Sideways? Tem uma coisa que eu gosto muito que é a cena em que ele guarda um vinho, durante a vida inteira, pra tomar num momento muito especial, e, de repente, ele descobre que o valor daquele vinho é relativo. O vinho só tem o valor que ele investe nele. Então, o protagonista resolve tomá-lo com um hamburguer de um fast food qualquer. Com o livro é a mesma coisa, depende do valor que você está emprestando pra ele.
Fe – Mas é que se todo mundo começar a fazer isso, daqui cem anos a gente não vai ter memória da nossa época.
Albertine – Mas é que eu não gosto de ficar emprestando minhas coisas pra todo mundo...(risos) E tem mais, vai ficar tudo armazenado na internet mesmo.


* * *
Tuti - A Sombra do Vento é um do melhores livros que já li.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Meu Querido Estranho

Textos de Thoreau e Somerset / Quadro de Paul Klee


Bastidores I
- O Dani veio só pra aparecer no blog! - acusa um.
(...)
- Ele só quer divulgar o livro dele – emenda outro.

(...)


Brincadeiras à parte, além de Thoreau, Somerset, Neruda e Paul Klee, o Clássicos do Abajour desta semana contou com a presença ilustre de um de seus membros mais antigos, Daniel Couri. E para nos matar de inveja, acaba de lançar seu primeiro livro, “
Made in Suécia: o paraíso pop do ABBA”. Um chiqueté. Ele dispara na corrida da trilogia "Plante uma árvore, faça um filho e escreva um livro antes de morrer." A nossa vantagem está no fato de ser tecnicamente inviável ele fabricar um filhote. (piada infame)

“A insustentável leveza do ser”
Por Daniel Couri

No último livro que li, O Fio da Navalha, de William Somerset Maugham, o personagem principal é um jovem americano da alta burguesia que abandona todos os confortos materiais em busca do sentido da vida. Mas o inusitado é que enquanto as pessoas ao seu redor estão preocupadas com luxo, dinheiro, enriquecimento, negócios, viagens, festas e diversão, ele procura as respostas para suas dúvidas dentro de si mesmo. É um homem que procura a verdade, sabedoria e, sobretudo, a paz. Esta é sua felicidade, ou melhor, sua meta de felicidade.

O livro fala que o caminho para a felicidade é tão difícil quanto andar sobre o fio de uma navalha. De fato, o título da obra é uma expressão retirada pelo autor de um dos upanixades (textos sagrados da Índia): "Difícil é andar sobre o aguçado fio de uma navalha; e árduo, dizem os sábios, é o caminho da Salvação."

O livro, originalmente publicado em 1944, ganhou várias versões para o cinema, mas nunca assisti nenhuma delas. Como admiro o autor, sou suspeito para falar, mas considero O Fio da Navalha uma obra de arte da literatura, uma leitura estimulante (perdoem-me o clichê!), risos...

*Serviço
MAUGHAM, William Somerset. O Fio da Navalha. 1944.

Bastidores II
Albertine: - Aquele livro, Mulheres que correm com lobos, fala disso. Desse sonho com o homem estranho...
(...)
Tuti: - Como é?
(...)
Albertine - É...é um livro que fala sobre o inconsciente feminino. Conta que toda mulher tem sonhos com um homem estranho, intruso, sempre que está mudando algo em sua vida, crescendo, evoluindo. Como que para inibí-la de pensar diferente.



O Milagre Americano
Por Albertine


Talvez seu nome fosse uma novidade para mim em decorrência da má vontade que tenho com tudo que vem dos norte-americanos. Fui apresentada ao escritor David Henry Thoreau por seu dedicado discípulo Alex Supertramp, em meados das águas de março. O encontro foi fortuito e intenso, no meio de uma sessão de cinema, no fim de um domingo qualquer.

Thoreau me surpreendeu pela sua bravura em descobrir do que ele era feito. Isolou-se por dois anos, em uma cabana, construída por ele mesmo, na beira de um lago em Concord, Massachusetts. Muitos o chamaram de covarde acusando o seu isolamento de fulga. Eu discordo. Embrenhar-se em si só pode ser um ato solitário. Fica impossível descobrir o que você é no meio de tanta gente ditando o que você deveria ser.

“É preciso alugar ou ocupar algum espaço como grileiro, cultivar uma safra pequena e comê-la em seguida. É preciso viver sozinho e depender de si mesmo, sempre com a mala pronta, prestes a recomeçar, sem muitos vínculos.”

Mas esse homem anacrônico jamais renunciou ao mundo, pelo contrário, ele dizia que não tinha a menor pretensão em torná-lo um lugar bom para se viver, mas só queria viver nele, sendo ele bom ou ruim. As ações solitárias de Thoreau nada têm de individualistas, tanto é, que ele foi preso ao deixar de pagar seus impostos em protesto à manutenção da escravidão nos EUA e por não aceitar que seu dinheiro financiasse a guerra que o governo americano havia travado contra o México.

“Sob um governo que prende qualquer pessoa injustamente, o verdadeiro lugar de um homem justo também é um cárcere. O único (lugar) que Massachusetts providenciou para seus espíritos mais livres e menos desesperançados, é sua prisão, é ser preso e afastado do Estado por ação do Estado, assim como os homens que já haviam se afastado por seus princípios. É lá que o escravo fugitivo, o prisioneiro mexicano em liberdade condicional e o índio que vieram protestar contra as injustiças sofridas por suas raças o encontrarão.”

Mesmo Fernando sendo um consumista assumido, ele demonstrou, timidamente, uma certa identificação com o autor quando eu o apresentei no Clássicos. Mais pela natureza bucólica de ambos, do que pelo desprendimento de Thoreau. Talvez o último ficasse se perguntado por que diabos Fernando possui uma dúzia de vídeo games em casa, se existem maneiras muito mais saudáveis de se esconder do mundo?! Mas jamais o condenaria, como eu faço sempre que o vejo. Thoreau se preocupava intensamente com o direito inalienável da busca pela Felicidade, expresso na Constituição dos EUA. Ele defendia a importância de cada indivíduo se dedicar a descobrir, por si mesmo, a real mensagem inerente a essa expressão.

*Serviço

KIRK, Andrew. Desobediência Civil de Thoreau; tradução de Débora Landsberg. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008.

Bastidores IV
Tuti: - Conheci um cara hoje, que já com quase 60 anos, ainda tem planos de abrir uma indústria. Isso depois de ser jornalista, dono de restaurante, e sei lá mais o que. Fenomenal a capacidade dele de fazer planos e a gente, aqui com a vida inteira pela frente, sem sonhar.
(...)
Albertine: - É muito medo da vida também.
(...)
Tuti: - É o nosso comodismo. Aquele raciocínio, de que não vou dar minha cara a tapa. Medo, medo de se frustrar.


Cli?

Por Erica Abe



Paul Klee viveu 61 anos, mas talvez apenas um destes, especificamente 1937, já seria suficiente para eu decidir levá-lo para o Clássicos do Abajour. Há mais ou menos seis anos eu procurava avidamente um desenho para a minha primeira tatuagem quando, desavisadamente, me deparei com A Revolução do Viaduto. Achei que ali tinha encontrado meu tão sonhado desenho. Muito tempo se passou, fiz duas tatuagens totalmente diferentes do tal quadro, mas confesso que ele ainda faz parte dos meus delírios.

O livro em que encontrei a tão adorada imagem, escrito por Susanna Partsch, há uma breve explicação sobre a obra. Seguem as partes fundamentais, digamos assim:

“Durante muito tempo, os críticos era unânimes em afirmar que Klee tinha mostrado aqui a ameaça que constituem os movimentos totalitários. Os arcos avançam, assim ‘anunciando um mau agouro ao observador’; um mundo chegado à maturidade vê-se espezinhado e destruído. (...)
Em 1987, Werckmeister pos em causa, e com razão, essas interpretações. Os arcos, nas cores amarela, laranja, rosa e vermelha, uns atarracados, outros finos e altos e outros ainda com pilares de diâmetros desiguais, não simbolizam um movimento totalitário, que se distingue precisamente pela uniformidade e conformismo e exclui toda a originalidade. Aqui, trata-se, manifestadamente, de indivíduos todos diferentes uns dos outros. (...)

Mas os arcos representados por Klee não se conformam com isso. Recusam-se a continuar a ser apenas um elo da cadeia e cada um deles procura existir por si próprio. Por isso eles ‘saem da ordem’, eles fazem a ‘revolução’. Cada um por si, e não a passo certo, vão ao encontro do observador. Estão conscientes da sua força, devido à sua superioridade numérica e, se gostariam de espezinhar qualquer coisa, seria a ordem que os obrigou à conformidade.”

*Serviço

Partsch, Susanna. KLEE. Ed. Taschen. Alemanha, 2000.


Bastidores IV
Fernando: - É a primeira vez que alguém traz um quadro pro Clássicos.
(...)
Ju: - É verdade, mas é também a primeira vez que trazem um postal, né Fernando?!!
(...)
Tuti: - Música, livros, revistas em quadrinhos... tudo isso já veio pra cá.
(...)
Daniel: - Ah, vou ver se trago alguma coisa diferente também.


quinta-feira, 8 de maio de 2008

Domologia ou Ciência da Velocidade

Impressões sobre a Argentina e Chile / Textos de John Fante e Fernando Einchenberg / Concertos de Brandengurbo

Bastidores I
Albertine: "- Passei por um dilema no free shop de Buenos Aires. Me deparei com o novo ipod shuffle por $ 79,00. Na hora que vi, pensei: "Lógico que vou levar, por esse preço!". Mas na boca do caixa refleti melhor. O que eu iria fazer com o meu antigo? Eu mal consigo selecionar 512 mb de músicas, imagina 1 giga?! Desisti da compra e fiquei orgulhosa da minha ação depreendida."
(...)
Albertine: "- Em Santiago a moda é ser Pokemon. Uma mistura de emo com punk. Lembra aquele pessoal que freqüenta o Pátio Brasil, só que mais colorido. Eles se amarram em ficar pedindo moedas na porta do supermercado porque a onda é beber com o dinheiro dos outros."
(...)
Albertine: "- A questão da ditadura é um assunto muito presente entre os chilenos. Comentei com eles que no Brasil o assunto é discutido de forma muito restrita."

Tuti: "- Mas você tem que considerar que o Brasil é muito extenso, em algumas regiões as pessoas nem perceberam que estavam em um regime fascista. A minha mãe mesmo comenta que em Presidente Olegário, interior de Minas, as pessoas não tinham a menor idéia do que estava acontecendo."

Fernando: "- Pior é que a crise econômica, que ocorreu logo após a abertura política, foi entendida pela população como uma falha do novo governo e não como conseqüência das medidas tomadas pelos militares. Por isso, existe até uma certa defesa por parte de alguns."

Excesso de Bagagem
Por Albertine


Voltei de viagem impregnada pelas controvérsias e identidades latino americanas. Tive que deixar de lado os textos de Neruda, Allende, Borges... porque estava ansiosa demais para compartilhar as minhas impressões de lugares tão próximos geograficamente, mas com características tão distantes. Foram quinze dias entre Buenos Aires, Mendoza, Santiago, Viña Del Mar e Valparaízo. Foi surpreendente perceber como a diferença da língua afastou o Brasil do resto do continente.

Os argentinos se comportam como os europeus, muito sisudos, beirando a falta de educação. Na maioria são brancos, quase transparentes, e andam pelas ruas apressados com seus cortes de cabelo esquisitos. O Caminito, bairro turístico de Buenos Aires, resume bem a idéia que tive dos portenhos. Tudo é muito maquiado, mas logo a poeira sai quando se levanta o tapete. Marcas profundas foram deixadas pela crise político-economica que começou em 2001. Muitas delas passam desapercebidas por turistas hipnotizados pelas vitrines da Florida.

Os chilenos são mais amistosos, de cores variadas, mas o seu ufanismo me deu um pouco de preguiça. Ouvi uma história hilária sobre um certo chileno que se intitulou proprietário da lua, endossado por uma lei que dizia que se você encontrasse algo na rua, que não tivesse dono, poderia se apossar do objeto. Depois que ele morreu, a deixou de herança para os seus compatriotas. Eles juram de pé junto que a lua é território chileno e que o testamento é verídico. Também gostam de exaltar que tiveram a primeira mulher presidente no continente americano, mesmo sendo extremamente machistas, e que os Andes funcionam como uma barreira natural que impede a entrada de parasitas, humanos ou não.

O que me chamou muito a atenção e me deixou emocionada foi a participação inflamada da população nas decisões políticas do país. Jovens, crianças e idosos, chilenos ou argentinos, vão para as ruas manifestar seu descontentamento quando percebem que seus direitos estão sendo ameaçados. Em Buenos Aires, peguei a fumaça que cobriu a cidade, resultado dos pastos queimados pelos agricultores em protesto ao aumento de impostos para exportações de produtos agrícolas. Em Santiago, não foi diferente. Chegando ao hotel, no bairro Bellas Artes, me deparei com uma marcha de 15 mil pessoas exigindo o retorno da distribuição de contraceptivos nos postos de saúde.

Cada viagem é uma experiência única. Vai deixando a nossa bagagem mais pesada, comprimindo o espaço destinado ao preconceito e dando passagem para a tolerância. Mesmo consciente de que cada um tem que descobrir o seu próprio roteiro, tomo a liberdade de colocar aqui algumas dicas de viagem, sem deixar de ressaltar que essas foram as impressões registradas em mim. Boa Viagem.

*Dicas
Surpresas:
No restaurante Desnível você encontra ótima comida e vinhos razoáveis (na verdade não fiquei muito fã dos vinhos argentinos). Um bife de chouriço + vinho San Telmo saiu R$ 35,00 reais para o casal. O lugar é meio pé sujo, o que torna tudo ainda mais divertido. / Endereço: Defensa, 855, San Telmo, Buenos Aires, Argentina.

Na casa de shows/loja de cd Notorious a música é excelente. Muito jazz e soul. Lugar pequeno, mas tem como ligar e fazer reserva. Das cervejas argentinas, só dá para descer a Quilmes e, normalmente, vem quente. Assisti a um sexteto vocal chamado Cabernet Sauvignon. Interessante. Ingresso R$ 6,00. Tem uma estação de metrô a 200 metros. / Endereço: Av. Callao, 966, Recoleta, Buenos Aires, Argentina.

Me arrastaram para uma birosca tipo Faisão Dourado. O pseudo-restaurante chamado J. Cruz foi inaugurado no início dos anos 70. A comida típica do lugar é a Choriana. Uma mistura de filé na cerveja, batata frita e cebola caramelada. O dono diz que o prato dá para duas pessoas, mas alimentou cinco, bem servidas. O mais interessante é que todos os visitantes podem deixar um recado nas paredes, na toalha da mesa, no banheiro... acompanhado de sua foto 3x4. Tudo isso regado a típica música chilena. / Endereço: Valparízo, Chile.

Decepções:
Fiquei arrasada ao chegar no Centro Cultural Borges. Não tinha absolutamente nada sobre o escritor, apesar do site oficial informar que havia uma sala permante. / Endereço: Viamonte esq. San Martín, Buenos Aires, Argentina.

Pegar ônibus em Buenos Aires é pura tristeza , o sistema de transporte público não é integrado. Ninguém sabe informar qual ônibus você tem que pegar e os motoristas são toscos. O negócio e se virar com o metrô e o táxi mesmo.

O tão famoso ponto turístico Caminito é só para inglês ver. Make up total. A primeira impressão desmorona quando você decide vasculhar o La Boca. Muitas famílias vivem em situação de extrema miséria por lá. / Endereço: La Boca, Buenos Aires, Argentina.

Não vi a menor graça em Viña del Mar. Estava bem frio e na praia ainda tinha uma placa que dizia: “Proibido juegos de paletas, futbol, voleyball, comercio ambulante, ingesta de alcohol, consumo de drogas”. Por quê será que a praia estava deserta?! / Endereço: Viña del Mar, Chile.

Melhor passeio:
Se perder em Mendoza e ser encontrada por duas senhoras, professoras, extremamente solícitas. Fizeram um city tour conosco recheado de histórias sobre o terremoto que destruiu a cidade em 1985 e detalhes sobre a ditadura argentina. / Endereço: Mendoza, Argentina.

Sem grana:
Andar de bicicleta pelo Parque San Martin. Tem zoológico, lago artificial e clube de remo. Comprar vinhos na bodega artesanal Dom Arturo, são baratos e um dos poucos tragáveis de Mendoza. Para quem quiser dar um pulo no Chile, melhor ir de ônibus, sai em torno de R$ 30,00. São seis horas acompanhadas pela paisagem enigmática dos Andes.

Achei um absurdo pagar R$ 90,00 reais só para conhecer a Concha y Toro, média de preço cobrada pelas operadoras de turismo. Por isso, resolvi aproveitar o fato do transporte público em Santiago funcionar muito bem. Com pouco mais de R$ 20,00, fui até a vinícola pegando o metrô até a estação Las Mercedes e depois um ônibus que te deixa na porta da Concha y Toro. Esse valor já inclui a entrada.

Bastidores II
Fernando: " - Quando eu ficar mais velho quero comprar um sítio em Frutal. Criar galinhas. Galinhas são bichos fantásticos.”


Albertine: " - Fernando prefere as galinhas do que as pessoas."
(...)

Fernando: "- Quantos vocês calçam?"

Tuti: "- 37."

Albertine: "-36."

Fenando: "- Muito bem."

Tuti: "- Por quê?"

Albertine: "- Você vai nos dar sapatos de presente?"

Fernando: "- Não, só tenho curiosidade em saber quanto as pessoas calçam."

Albetine: "- E você demorou 2 anos para perguntar quanto a gente calça? Me senti desprestigiada."


Sobre viagens, viagens e viagens (ou em busca do seu próprio eu)
Por Érica Abe

Eu era um jovem, passando fome, bebendo e tentando ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da cidade, e nada do que eu lia tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas que me cercavam. (...) Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava. Fiquei parado de pé por um momento lendo. Como um homem que encontrara ouro no lixão da cidade, levei o livro para uma mesa. As linhas rolavam facilmente através da página, havia um fluxo. Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por outra como ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, uma sensação de algo entalhado ali. E aqui, finalmente, estava um homem que não tinha medo de emoção. O humor e a dor estavam entrelaçados a uma soberba simplicidade O começo daquele livro foi um milagre arrebatador e enorme para mim”.

Ler Pergunte ao Pó, de John Fante, foi uma experiência singular. Pouquíssimas foram as vezes em que eu primeiro vi o filme para, tempos depois, ler o livro (para ser mais exata, um ano e meio). E, se Bukowski foi tomado por uma sensação inebriante ao iniciar a leitura de Pergunte ao Pó, conforme descreve nas linhas acima, retiradas do prefácio da 7ª edição, editora José Olympio, agora foi a minha vez de inebriar-me em palavras tão belas escritas neste pré-livro. Entre tantas outras, este pequeno texto é uma das provas de porque um filme, por mais bem feito que seja, não conseguirá substituir, com exatidão, a leitura de uma obra.


Levar este texto ao Clássicos do Abajour foi uma decisão que tomei logo que encerrei a leitura do Prefácio e iniciei o primeiro capítulo. E, apesar de todo o livro ser de uma delicadeza incrível, aquela primeira parte não saiu da minha memória. E eu precisava partilhar isso. Mas, em uma edição especial do Clássicos, como esta que foi realizada no último dia 3 de maio, eu não poderia me contentar com apenas uma contribuição. Depois de quase dois meses, eu tinha muita coisa para falar. Muitas delas ainda ficaram por dizer, é verdade, mas ler algumas linhas de Paul Virilio se fazia extremamente necessário. E como ocorre em muitas dos nossos encontros, suas citações tinha extrema ligação com o filme Into the Wild indicado pela Ju. Eis algumas delas:

“O poder está ligado à riqueza. Mas se esquece de dizer que a riqueza está ligada à velocidade. (...)Quando se diz que tempo é dinheiro, quer-se dizer que a velocidade é poder.”

“Ora, o homem não vive somente de ar puro, de água, de carne; nós vivemos também de distância. Temos necessidade de distância, senão é o encarceramento, o sentimento de aprisionamento. Michel Foucault disse que o século XVIII era o século do grande aprisionamento. Não é, pois ele ainda está diante de nós. Amanhã, a humanidade vai se sentir aprisionada numa Terra infinitamente pequena, sabendo que não há nenhum planeta habitável à volta. (...) Somos proporções. As proporções fazem parte da vida, tanto geográficas como humanas, fisiológicas.”

“Mas um trem não é uma viagem. Se você vai a Santiago de Compostela a pé, com seu bastão, é uma viagem. Se você entra num vagão de trem, você não está em viagem, está no tráfego.”

“Não há ateus hoje. Há aqueles que crêem em Deus e os que crêem no deus-máquina, por meio da ciência. Não se pode idealizar a ciência. Do contrário ela não será uma sabedoria, mas um delírio místico, deus ex machina.”

*Serviço
FANTE, John. Pergunte ao pó; tradução de Roberto Muggiati. 7 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
EICHENBERG, Fernando. Entre aspas:Diálogos Contemporâneos. 1 ed: Globo, 2006.

Bastidores III
Tuti: “- John Fante vivia numa pindaíba da porra. Só se relacionava com mulheres doidas. Daí, quando ele ganhava $ 7,00, o que para a época era uma fortuna, ele ia lá e gastava $ 6,00 com uma prostituta.”
(risos)

Albertine: “- Já entendi porque o Bukowski gosta dele.”

Fernando: “- Eu já tinha ouvido falar do Fante, acho que foi naquele livro “Livro dos livros perdidos”, do Stuart Kelly. Fala sobre livros que não foram escritos ou que se perderam por algum motivo. Ele trás vários autores desde a época clássica até o século XX.

Tuti: “- Você gostou desse livro?” (pergunta com uma cara de quem comeu limão azedo)

Fernando: “- Aaaah, eu descobri coisas que eu não sabia.”

(risos)

Tuti: “- Lógico, você só descobre coisas que necessariamente você não sabia.”
(mais risos)

Fernando: “- Tem uma história sobre o Dante. Dizendo que não foi ele quem escreveu os últimos livros da “Divina Comédia”.”

Tuti: “- Não? Então, quem escreveu?”

Fernando: “- O Boccaccio, na biografia de Dante, conta uma história de que o escritor teria aparecido, depois de morto, para um de seus filhos e indicado o local onde estavam escondidos os últimos livros. Mas, na verdade, ninguém sabe quem realmente escreveu.”

Tuti: “- Se eu soubesse que você ia comprar 'ESSE' livro, tinha te dado o meu. Detestei.”

Fernando: “- É, mas estou vendo aqui, não tem nada sobre John Fante. Mas é impressionante saber que pouca coisa sobrou dos textos gregos. Quase tudo se perdeu. Aqui tem uma história sobre um escritor clássico chamado Menandro. Havia um grande interesse em achar algum texto de autoria dele, mas tudo havia se perdido. No início do século XX, acharam uma peça, só que o texto era fraquíssimo.”

Albertine: “- Ou seja, anos de buscas jogados fora.”

Fernando: "- Mas, na verdade, o Menandro quebrou alguns paradigmas do teatro grego, porque trouxe personagens comuns para as peças. Até então, só eram representadas figuras míticas. Daí, o autor faz uma comparação interessante, seria como trazer um homem das cavernas para sentar em uma mesa de jantar e querer que ele usasse talheres.”


O Blog
Por Fernando Silva

É tarde de sábado e três pessoas conversam sobre blogs. Duas delas demonstram uma "empolgação" acima do comum, menos uma. Quando uma gravação da conversa é proposta, a situação fica ainda mais complicada. "-Pessoas, não tenho culpa de ser assim, tão "desconfiado"." Deve ser um trauma de infância, ou talvez, seja só porque eu sou mineiro mesmo e isso é algo de "nascença".

Bem, hoje é sábado e eu tenho um prazo a cumprir. Confesso que no início a idéia de postar algo era como cumprir um trato, mas o último post da Ju foi tão incrível que a desconfiança inicial com relação a este blog deu lugar a um interesse sem precedentes na história recente da humanidade.

Bem, se é para escrever algo, preciso de um iogurte. Aliás, após fazer as compras da semana, pude constatar os alimentos pressionando a inflação cada vez mais. E nem me venham com idéias a favor dos biocombustíveis. Para mim, a cana de açucar sempre será a culpada. Quem anda por 10 quilômetros de estrada de chão vendo só cana onde antes se via árvores e currais, sabe muito bem do que estou falando.

Enfim, hoje eu vim aqui, na verdade, para falar sobre os concertos de Brandenburgo. Queria achar um texto interessante sobre, mas não encontrei nada. Eu não tenho capacidade de analisar cada concerto, eu só gosto deles assim, me fazem bem.

PS1: Eu não prefiro galinhas do que pessoas. Depende da galinha e depende da pessoa.

PS2: Aposto que a Ju pensou que eu não iria postar.

PS3: Postei esse texto de meu novo EEE PC e ele é demais.

http://www.youtube.com/watch?vZpf38dQpMzk

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Edição Comemorativa


Confinados em um quarto e sala de uma cidade sem esquinas, sob a guarda dos olhos interrogativos de Anabel Lee, vulgo Judith, em uma época que para a maioria DOI CODI mais parece nome de seriado americano, nós damos andamento às nossas reuniões nada secretas. Na tentativa de reproduzir uma década que não vivemos mas da qual sentimos saudade.

Embriagados pela fumaça insistente dos cigarros de seus membros, os comentários sobre quem pulou de fase e virou PA e os questionamentos sobre o por quê a física quântica foi parar na prateleira dos esotéricos deixam a conjuntura política atual sem espaço para respirar. Talvez o motivo da asfixia é o fato de só nos ter sobrado a liberdade para o consumo frívolo. Contudo, restrito aos portadores do green card.

Em um país onde até receita de bolo já estampou capa de jornal, Quem Somos Nós para limitarmos os assuntos que entram em pauta?! Está tudo valendo: de auto-ajuda a manual de adestramento de como educar suas lhamas para não cuspirem em pú
blico. E como o mundo virtual é terra de ninguém, o que não chega a ser um pecado já que “as leis nunca tornaram os homens mais justos”, resolvemos compartilhar a nossa regurgitação.

Para os camaradas que nos farejaram no oráculo virtual: - Que São Terrunyo vos abençoe!